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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

De partida para lado nenhum, a soprar estrelas para lá das nuvens...

por Entre Voos, em 30.10.15

  

"Last call for passenger..." anuncia através do sistema de som do aeroporto uma voz anónima, sensual, quente, decidida, que conforta e nos faz sentir, a cada um de nós, a pessoa mais importante da sala de espera. Fez-me lembrar de ti... De amantes a estranhos, anónimos, foi o nosso percurso demasiado rápido: de um céu perfeito ao abandono na poeira do tempo, um voo a dois reduzido hoje a silêncio e pequenos vislumbres de nós, como moedas esquecidas no bolso de um antigo casaco confortável...

 

Parei no caminho para beber café na estação de serviço, não por causa da qualidade (nada como um Nespresso, certo?), mas como quem quer parar o tempo para conseguir respirar, para olhar devagar para a vida que corre desenfreada à nossa volta, talvez para ver se, por conspiração do destino e por sincronização inesperada de todos os relógios do Universo, tu estarias ali, numa qualquer mesa, lá ao fundo, quem sabe, a beber o teu café com canela em pó, sem açúcar, com um lugar vago ao teu lado onde me pudesse sentar… Não estavas, claro, mas isso não me impediu de sorrir e abanar a cabeça…

 

Comprei o jornal, pedi um café, sentei-me, mas não li o jornal e mesmo o café acabou por esfriar intacto. Observei, apenas, tudo e nada, todos e ninguém... Saí e preparei-me devagar para fumar um cigarro, como convém num ritual, enquanto as pessoas chegavam apressadas, casais com e sem filhos, sem tempo a perder, sem reparar que eu as observava, eles quase sem se olharem, e acredito mesmo que alguns nem sequer tinham a noção do momento singular, fantástico, delicioso, que era estarem ali com filhos a empurrarem-se, com aquele "alguém" especial ao lado, um caminho para percorrer, um destino para onde ir...

 

Naquele fim de tarde o frio delineava o fumo que eu ia soprando para o ar, definindo-o por um breve e suspenso momento para logo desaparecer completamente, sem rasto, sem forma nem substância… "Sem saber bem como, nalgum momento desta vida tinhamo-nos desencontrado, talvez um de nós tenha chegado demasiado tarde, ou demasiado cedo, ou o outro não tenha sequer conseguido aparecer...", pensei, enquanto agarrava a gola do casaco para afastar o frio e os pensamentos... Quando voltei para o carro e me sentei confortável, no rádio estava a passar Sting (uma bonita versão do "Come down in time")… “Parabéns, onde quer que estejas!”, deixei escapar, num arrepio de pele, e voltei a sorrir enquanto abanava a cabeça devagar, pensativo, e colocava o carro a trabalhar, pois tinha um voo para apanhar…

 

É um mundo fantástico, este, e estamos todos nele... "Last call for passenger..." terei ouvido o meu nome?... De partida para lado nenhum, a soprar estrelas para lá das nuvens, nesta noite fria... 

 

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Que outra prenda posso dar a quem me dá tudo, mãe?...

por Entre Voos, em 28.10.15

 

Não me olhes assim, com esse amor infinito pendurado no sorriso dos teus olhos. Hoje quero que vejas nos meus tudo o que sempre te quis dizer e nunca tive coragem, talvez porque nós, homens, temos uma dificuldade antropológica em pronunciar a palavra "amo-te".

 

Hoje fazes anos… Hoje quero ser eu a ter paciência para ti. É a minha vez de te dar colo, de deixar que te aninhes no meu abraço e te lembres, por instantes, que o tempo não parou. Hoje quero que olhes para mim e vejas, não a criança que foi o teu filho, mas o homem que geraste. Quando tudo apostei e ganhei, estavas ao meu lado; quando tudo apostei e perdi, estiveste lá para me apanhar do chão e ajudares a erguer. Sei hoje que cada ruga na tua pele foi causada por uma dor minha, que em cada preocupação tua estiveram os caminhos que me deixaste percorrer, solto, a descobrir a vida. Colocaste em nós, teus filhos, o melhor que és. Até o brilho irrequieto que tenho nos olhos te pertence e mesmo a minha forma de amar é como a tua: nada menos que tudo. Tu levantas-me todos os dias com palavras que pacificam lágrimas, com saudades que me fazem nascer sorrisos, com sorrisos que elevam as minhas vitórias. Há momentos que não voltam mais, mas as memórias são quadros que vamos pendurando nos corredores da vida, nas encruzilhadas, onde nos demoramos a pensar nos que nos rodeiam e naqueles que, apesar de ausentes, fazem parte de nós para sempre...

 

Vejo-te a rodopiar, atarefada, de volta dos netos que não te deixam descansar um minuto, a compor a mesa que ainda não está perfeita, a fazer a comida que no fogão vai enchendo a casa de cheiros que já são eternos e significados completos em família. Ahhhh, se eu pudesse, parava este comboio que nos rouba o tempo para te poder ter sempre aí atarefada e com esta gente toda em casa, como tu gostas :o) Mas hoje vou ser eu a ouvir-te e a dizer que tudo vai correr bem, que o tempo é nosso amigo e que ajuda a serenar o sofrimento, por mais duro ou profundo que seja. Hoje vou ser eu a passar a mão pelo teu cabelo, a ajeitar aquela madeixa teimosa e a dizer-te que todos os dias falo contigo, mesmo quando não te telefono...

 

És tão preocupada com os outros que quase nos fazes esquecer das tuas dores: é isso que pretendes, não é, passar despercebida? Mas hoje não vais conseguir :o) Hoje terás à tua volta a família que te ama. Hoje serás a estrela visível da nossa festa, da tua festa. Hoje vais esquecer-te dos outros por uns instantes e ver o amor infinito pendurado nos olhos destes teus filhos e netos, nos sorrisos tranquilos, genuínos e cheios que brindam à tua saúde… Hoje quero que saibas que vou ser sempre um teu porto de abrigo: que outra prenda posso dar a quem me dá tudo, mãe?... Parabéns :o)

 

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Aparecem assim em vagas, sabes?... As saudades, quero dizer…

por Entre Voos, em 23.10.15

 

 

Aparecem assim em vagas, sabes?... As saudades, quero dizer… Pressentem-me incauto, talvez num momento mais tranquilo da noite e assaltam sem piedade nem esforço a minha paz negociada: pura e simplesmente chegam e ocupam-me com a convicção de um direito conquistado há muito…

 

Encontro-te nos meus sonhos, quando as sombras da noite se agigantam cá dentro. De olhos fechados, bem acordado, percorro-te de cor, sempre como da primeira vez… Sei que gostas de dormir na tua cama, debaixo do teu edredão de penas. Sei que te fica visível uma veia mesmo no meio da testa quanto de ris de uma piada. Sei que não gostas da forma como eu conduzo, em especial quando estamos atrasados para chegar ao hotel onde iremos passar o fim de semana. Sei que gostas do meu sorriso tanto quanto eu do teu perfume. Sei que gostas de saltos altos e de vestir as minhas camisas brancas. Sei que tens um pescoço bonito que valoriza os teus brincos quando prendes o cabelo num rabo-de-cavalo. Sei quão macias são as tuas mãos quando encontram as minhas num passeio ao longo da praia…

 

Sei que gostas do meu abraço. Sei que gostas que faça panquecas e torradas de manhã, para um batalhão de esfomeados. Sei que adoras as tuas aulas e que és grata à vida. Sei que exiges sempre o teu melhor e que o fazes com um sorriso. Sei que adoras a tua família mais do que tudo no mundo. Sei a que sabem as tuas lágrimas recolhidas pelos meus lábios e o som que a alegria tem na tua boca. Sei que gosto do teu rolo de carne e que o teu arroz doce é o melhor do mundo. Sei que bebes café com canela e és capaz de ler um livro todo numa tarde de chuva. Sei que gostas de praia e do silêncio.

 

Sei que gostas de chegar a casa e acender um incenso que deixará toda a confusão do dia no lado de fora da porta de entrada. Sei que gostas de ficar a ver um filme romântico tapada com uma manta quente, no final da noite, com uma chávena de chá verde por perto. Sei que nas noites frias gostas de encostar os teus pés gelados ao calor dos meus. Sei que gostas de dormir de pijama completo para nos demorarmos nos olhos um do outro enquanto lenta e apaixonadamente te descubro a pele quente. Sei que quando me olhas, com a minha cara entre as tuas mãos, consegues ver a minha alma. Sei qual a tua cor preferida e a profundidade da doçura nos teus olhos quando falas aos filhos. Sei que gostas de coisas simples e com significado.

 

Sei que por vezes, quando sorris, na realidade choras por dentro, e que por vezes, quando choras, é por alegria que o fazes. Sei que choraste nas primeiras vezes que fizemos amor. Sei que chorei na última vez que fizemos amor… Sei que tirámos os pés do chão para que pudéssemos voar juntos…

 

Aparecem assim em vagas, sabes?... As saudades de ti, quero dizer… 

 

 

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Conseguirão as palavras falar de amor com a mesma intensidade que um sorriso num sussurro?

por Entre Voos, em 20.10.15

 

 

Olho o mar tranquilo à minha frente mas apenas consigo sentir as ondas vigorosas que, sem descanso, se abatem na praia deserta que trago dentro do peito. Desvio insistentemente o olhar do horizonte sereno, neste plácido final de tarde emoldurado por um sol de outono, para o pousar na folha onde escrevo sobre o mar revolto que trago dentro…

 

Escrever é uma maneira de materializar os nossos fantasmas para os aprisionarmos na forma rigorosa e tangível das palavras selecionadas com cuidado… É como se, depois de estarem alinhados num texto, deixassem de estar dentro de nós e assim pudéssemos, com o simples amarrotar da folha, deixar que o vento se encarregasse de nos limpar o pensamento, a pele e a alma. É como se pudéssemos, finalmente, descansar, nem que apenas até ao final do dia, onde os silêncios da noite voltam ruidosos como velhos amigos cheios de notícias e palmadas nas costas, dispostos a mais uma noitada... É por isso que cada palavra que escrevemos tem mundos infinitos dentro de si, corpos reais, lugares sentidos, emoções vívidas, incessantes decisões sobre guerra e paz, vitórias e derrotas, braços caídos e gritos de alegria… Escrever é arquivar a vida, é pacificar o passado para arranjar espaço ao futuro…

 

E depois ela chegou, atraente como sempre foi, segura como sabe que é, passeando devagar junto ao pequeno muro caiado que separa a esplanada do café do areal, sem conseguir convencer ninguém que a observasse de que a única coisa que lhe interessava hoje fosse o mar lá ao longe e não as histórias inacabadas que povoavam o seu pensamento. Não me viu, claro, de tão ausente que estava, mas pouco depois ao percorrer o espaço com o seu olhar pensativo fez uma expressão de surpresa quando os nossos olhares se cruzaram, e sorriu envergonhada, como se tivesse sido possível eu ter escutado o eco das suas reflexões mais íntimas...

 

Caminhou hesitante para se sentar numa mesa perto da minha, como se desculpando das ondulações escusadas provocadas pelo seu caminhar na tranquilidade aparente do espaço que eu ocupava… “Bom dia…” sussurrou, oferecendo-me um sorriso genuíno, olhando depois para os farrapos dos meus pensamentos materializados nas frases que tinha deixado dispersas na superfície do papel. E foi a minha vez de me envergonhar, devolvendo-lhe o cumprimento num sorriso franco e dobrando a folha em cima da mesa para afastar as memórias de ti...

 

Quando o empregado me veio trazer um novo café, levou com ele as linhas amarrotadas do passado e, aproveitando o momento em que olhaste para nós, pedi-te com simpatia um lenço, apontando para os meus óculos em cima da mesa, quando o que realmente queria era abraçar-te, voltar a agarrar as tuas mãos macias (como o fiz há séculos atrás, naquela sala, com uma toalha mágica), e começar a escrever uma nova história: conseguirão as palavras falar de amor com a mesma intensidade que um sorriso num sussurro?...

 

"Então? A perder-se nas palavras ou a tentar encontrar-se nelas?"- perguntaste calmamente, com o teu habitual sorriso doce, com o teu inconfundível perfume a embriagar-me, enquanto eu mergulhava nos teus olhos e pedia que nos resgatasses... 

 

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Esta noite vou ficar por aqui contigo, se não te importares, pode ser?

por Entre Voos, em 17.10.15

 

 

02:46 AM. A noite há muito que aqui chegou e impiedosamente se instalou nos gestos com que lentamente construo o meu tempo. À varanda, chegam-me ecos como imagens desgarradas de um filme sem sentido, fotografias arrastadas pela brisa fresca que se faz sentir e que pinta traços imprecisos de outras vidas. Ao longe, a espaços, o som de carros tardios interrompe por momentos o cricrilar que reina nesta zona da cidade.

 

Risos perdidos por entre os caminhos de uma madrugada de sábado, ébrios, lembram-me que a noite também pode ser dia, luz e calor. Por entre baforadas do cigarro que seguro entre dois dedos da mão direita, imagino as vidas anónimas arrendatárias dessas alegrias instantâneas, simples, eficazes, ruidosas, e aconchego o casaco sem conseguir decidir se o faço pelo frio que sinto na pele ou na alma...

 

O corpo pede para me render ao conforto da sala, mas prefiro o frio que me mantém acordado. Não tenho planos que ultrapassem o simples desejo de estar aqui nos próximos minutos, a desfrutar desta noite fria, preenchendo o tempo com um cigarro e um James Martin’s sem gelo. A noite reclama para si as sombras do dia e a dos nossos espaços interiores, mas de mim nada mais recebe do que a satisfação que sinto por aqui estar, tranquilo, presente.

 

Deixo-me invadir pela paz obscura que acalma as almas inquietas enquanto o pensamento divaga, e imagino a tua enorme gargalhada, paternalmente trocista, agora que estás sentado aí “em cima”, conhecedor do passado e do futuro destes ensimesmados mortais. É assim, noite dentro, que nos sinto mais próximos, sabes?… Esta noite vou ficar por aqui contigo, se não te importares, a contar-te os meus planos, a partilhar os meus pensamentos, para nos rirmos juntos, pode ser?...

 

 

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