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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Linda...

por Entre Voos, em 29.02.16

 

Hoje imaginei-te a chegar à pequena mesa do café onde me sentei para tomar o pequeno almoço… Chegarias linda, sorridente e elegante, como sempre. Trarias a luz do sol no olhar e a primavera no calor nos teus lábios de mel. Falarias de tudo e de nada e eu, feliz, escutaria o trinado melodioso das aves no céu, adivinharia o fresco dos regatos nas montanhas, experimentaria na pele o acordar sensual que a tua voz sempre me provocou e, depois, sentar-me-ia numa nuvem contigo…

 

Pedirias um chá de rooibos e eu um chá preto… Afastarias do rosto, distraída, uma madeixa do teu cabelo loiro e eu renasceria ali, no quadro que a manhã pintaria para nós: a luz matinal a entrar pela janela do café, o cheiro a pão acabado de cozer, as vozes sumidas das conversas nas outras mesas, eu e tu sorrindo tranquilos numa manhã insuspeita, um encontro fortuito, um mundo novo, de novo…

 

Ficaria ali eternamente, deliciado, trocando novidades contigo… O tempo ficaria suspenso nos gestos espontâneos que as tuas mãos delicadas fariam, eu alimentado pelo brilho dos teus olhos, tu beleza pura, eu a procurar-te nos silêncios das frases que não quererias dizer, tu a baixares os olhos para calares com um sorriso tímido as palavras ternas que eu te diria…

 

Chegarias linda e ficarias por ali como se todas as manhãs tomássemos o pequeno almoço naquela mesa, naquele café… Sairíamos juntos, como sempre fomos, caminhando serenos, lado a lado, tu a fazeres-me feliz, eu a fazer-te sorrir, nós a tornarmos o mundo mais cintilante e depois, por determinação do universo antigo, o teu perfume não mais se ausentaria da minha pele…

 

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É abraçado a ti que todas as noites adormeço…

por Entre Voos, em 18.02.16

 

Os habituais barulhos da cidade já se calaram há muito tempo. De perto, chegam-me os sussurros tranquilos do mar a cortejar a areia, numa dança diária, cuidada e paciente… A chuva fria que desaba a intervalos regulares, esbate os contornos da noite emprestando uma cintilação difusa às formas naturais que se adivinham ao longo da praia… O vento forte de hoje devolve-me o cheiro do sal roubado ao mar, impregnando os meus sentidos com este bálsamo único, premiando o meu torpor com este desmedido espetáculo, como se as forças da natureza tivessem conspirado entre si para hoje me gratificarem com o seu melhor desempenho… Mas noite alguma será capaz de me esconder o caminho até ti…

 

Sereno, observo da janela da sala, como se de uma tela enorme se tratasse, os milhares de tons de cinzento escuro e negro que compõe o céu… Volto-me e, em cima do sofá comprido e espalhadas à volta da guitarra, vejo as folhas com as letras e acordes das músicas que estive a tocar… Seguro na mão uma chávena de chá preto que saboreio encostado ao vidro da janela, na tentativa de afastar o frio que teima em se demorar dentro do peito… Ainda vibram em mim os acordes da música que toquei para ti. Os meus dedos percorreram as cordas da guitarra como se fossem fios do teu longo cabelo loiro e, durante esse tempo, senti que estavas ali, ao meu lado, com o rosto apoiado entre as tuas mãos, sentada em cima das tuas longas pernas cruzadas, ouvindo-me com uma manta à tua volta e, nos lábios, aquele sorriso que me ilumina…

 

Dói-me a distância que nos separa, rendido que estou às saudades que te tenho. Nenhuma das viagens que fiz te trouxe para mais perto, nem acalmou a nostalgia que os meus gestos e pensamentos denunciam. Olho para este lago interior e ele devolve-me sempre, teimoso, o reflexo do teu rosto sorridente... Tenho saudades das tuas pequenas coisas... De encontrar um cabelo teu no meu pullover azul; de te ver a colocar o batom, de manhã, em frente ao espelho, enquanto falas comigo e eu a cair para dentro dos teus lábios; de chegar ao armário e ter que desviar uma camisa tua, branca, no meio das minhas; de encontrar um brinco teu, ou um anel, na nossa mesa de cabeceira; de, ao fazer a cama de manhã, ser despertado pela clara insinuação do perfume que sempre deixavas nos lençóis; enfim, saudades de ti…

 

E depois estou cansado de responder aos outros: “Bom dia, sim, está tudo bem”, “Sim, bem melhor, o trabalho ajuda”… quero dizer-lhes que me fazes falta; gritar que te amo tanto como sempre amei; quero dizer-lhes que nada consegue atenuar a falta que me fazes ao sentido dos dias; que por vezes, nas minhas refeições solitárias, saboreio de memória o gosto do teu arroz doce, a textura do teu delicioso rolo de carne; quero dizer-lhes que me faz falta a luz do teu olhar, a segurança do teu abraço, a magia doce do teu perfume; que me faz falta percorrer a tua pele macia para nela saciar a sede da minha; que me falta a paz do teu coração e o sossego que as tuas mãos transmitem ao acariciar o meu peito… Posso ter-te perdido dos meus dias, mas é abraçado a ti que todas as noites adormeço: amo-te, sabes?...

 

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"My Funny Valentine"...

por Entre Voos, em 13.02.16

 

O dia amanhecera bastante frio e a chuva caía insistente ensopando-lhe a gabardine e os sapatos. O vento empurrava as poucas folhas das árvores que ladeavam a estrada, obrigando-o a manter as mãos nos bolsos do casaco para se proteger do frio, enquanto se aproximava da esplanada onde, anos atrás, se habituara a tomar café… Na verdade, há mais de seis meses que não aparecia por ali: custava-lhe estar no sítio onde tudo começara, onde a vira pela primeira vez. Mas hoje apetecera-lhe passar por lá, afinal era véspera de São Valentim e, como sabemos, tudo pode acontecer nesta altura…

 

Estava nervoso. Não sabia se ela apareceria pois não tinha obtido resposta à mensagem que lhe enviara convidando-a para tomar café. Fora há tanto tempo que se separaram mas, no entanto, parecia ter sido ontem… Não sabia o que lhe dizer nem o que fazer se a encontrasse, apenas sabia que ainda a amava. Foi por isso que sempre evitou os locais onde suspeitava que ela pudesse estar, como esta esplanada onde tantas vezes fizeram planos para o fim de semana ou se deixaram estar simplesmente a fruir da companhia um do outro, a conhecerem no silêncio dos seus olhares cúmplices o verdadeiro sentido do tempo partilhado, ali, de mãos dadas, a gravarem na pele as memórias que tornariam a sua relação eterna…

 

Quando ela chegou não foram precisas palavras. O abraço silencioso que deram uniu-os até à alma, lembrando-lhes porque se continuavam a amar para lá do tempo e das circunstâncias. Não havia nenhum outro sítio onde desejassem estar, pois era ali que pertenciam. Desejaram-se em cada sorriso que trocaram e fizeram amor nos olhos um do outro… Não foram precisas palavras. Não teceram desculpas porque nada havia a perdoar. Poderiam encontrar muitas razões para se afastarem em direções opostas, mas lograram encontrar a única que os faria ficar juntos: amavam-se como só se ama uma vez na vida e ambos sabiam disso…

 

Foi ela quem primeiro estendeu a mão para agarrar na dele. Ele deixou que ela o encaminhasse para casa. Afinal, o amor não é apenas sobre o quanto se gosta da outra pessoa, mas sobretudo o quão especial e único aquela pessoa é capaz de nos faz sentir a nós próprios… Afastaram-se devagar, a brilhar por dentro...

 

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Regressar a casa é a melhor parte do dia…

por Entre Voos, em 09.02.16

 

Regressar a casa – regressar a ti – é a melhor parte do dia. Apesar da chuva, o regresso é sempre feito com a satisfação natural da antecipação do teu abraço, do teu beijo quente, do teu “Então? Como correu o dia?”… Na lareira estarão a arder dois toros de madeira, a casa estará preenchida com o cheiro do arroz doce acabado de fazer e, na sala, a música íntima do Michael Bublé conspira para que te ofereça um beijo apaixonado, como se tivesse saído de casa há uma semana atrás…

 

O caminho de regresso a casa é uma avenida larga e plácida, na antecipação de saber que em breve, quando estivermos juntos, todas as ansiedades acumuladas irão desaparecer naquele abraço que nos deixará inteiros; é saber que irei respirar o perfume que se liberta do teu longo cabelo macio e que, nesse instante, farei as pazes com o mundo inteiro, deixando que um sorriso largo se abra no meu rosto…

 

Regressar a casa é a melhor parte do dia… É regressar aos braços que me dão sentido, é regressar aos lábios que me alimentam, à pele que me abriga, à alma que me define e me torna mais forte, é chegar ao destino que sempre soube que eras… Chegar a casa não é chegar a estas quatro paredes que nos envolvem: é chegar aqui e saber, na forma como me olhas, que te pertenço e ficar feliz por isso...

 

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"Fala-me de um dia perfeito..."

por Entre Voos, em 02.02.16

 

Acompanhada pelo trompete de Chris Botti, a voz de Sting pairava no ar criando o ambiente apropriado ao momento de descontração e intimidade que se sentia na sala. Deitados no sofá, as costas dela encostavam-se serenas ao peito dele, enquanto pensava que a sua vida encaixava perfeitamente no abraço seguro que a envolvia, como se nada mais lhe importasse naquele momento... Ele ia-lhe beijando a pele macia do pescoço, de vez em quando, e a sua barba provocava nela deliciosos arrepios de protesto…

 

"Fala-me de um dia perfeito..." – pediu-lhe com a sua habitual voz, sedutora como a superfície de um lago tranquilo, num desafio ao silêncio morno que se instalara enquanto enrolava, distraída, uma madeixa do seu longo cabelo louro. Ele sorriu, ajeitou-se ao lado dela, ganhando espaço para a voltar de frente para si, de forma a poder olhá-la naqueles olhos meigos e profundos pelos quais se apaixonava todos os dias desde que a conhecera…

 

“Um dia perfeito” – começou – “é cada dia em que me permites passear os meus dedos pelo teu cabelo macio e sentir que vais estar aí, dando sentido às nossas noites de outono e inverno, na construção de dias de primavera e verão…”. Enquanto o dizia, os dedos da sua mão esquerda penteavam-lhe o cabelo para trás, desviando-o dos olhos e das orelhas pequenas que tantas vezes lhe ouviram palavras de deleite…"Um dia perfeito é cada dia em que o tempo só faz sentido ao lado da pessoa que o consegue parar quando nos olha, como tu fazes..."

 

Fechou os olhos e inspirou fundo a fragrância que o cabelo dela libertava, inebriado. “Um dia perfeito é cada dia em que posso sentir o teu perfume tão perto e, assim, ter o paraíso ao alcance de um beijo na tua face de anjo… ” - disse-lhe, para lhe tocar suavemente com um beijo meigo em cada pálpebra e depois, apaixonado, na curva que a boca dela desenhava ao sorrir… "Um dia perfeito é cada dia em que perco a respiração quando nos despedimos de manhã para só voltar a respirar no final da tarde, ressucitado no calor dos teus lábios..."

 

“Um dia perfeito" – continuou – “é cada dia que começa com o som da minha voz a desejar-te bom dia e termina com os teus pés frios encostados ao calor dos meus, debaixo dos lençois brancos que escolhemos para a nossa cama… Um dia perfeito é cada dia em que o meu coração percorre contigo as horas ingratas em cada passo que dás longe de mim, sabendo que o trabalho é apenas uma forma de ocupar o tempo até voltar a estar contigo…”

 

Deixou que o silêncio entre eles alojasse o solo do trompete da música que continuava a ouvir-se e acariciou-lhe o rosto, olhando-a nos olhos enquanto concluía: “Sim, um dia perfeito é qualquer um passado contigo, juntos ou afastados, com a certeza que, se um dia nos perdermos na estrada que estamos a construir, conseguiremos sempre encontrar o caminho de regresso seguindo a luz que cada um acendeu na alma do outro… Um dia perfeito é cada dia em que posso dizer, olhando-te assim, que te amo...” Ela sorriu como só ela sabe sorrir, fingindo resistir quando ele a puxou para si para lhe tomar os lábios sensuais, perguntando-lhe: "Que vais fazer amanhã?... E no resto da tua vida?..."

 

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