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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

"Para sempre, é sempre por um triz..."

por Entre Voos, em 29.06.16

 

É noite outra vez... Passo a cara por água usando as mãos como conchas, estas mãos que foram feitas para percorrerem a tua pele e se aninharem, gentilmente, dentro das tuas... Por mais que lave e seque o rosto com a toalha que pende do toalheiro, não consigo limpar a história nem refazer o tempo... Um sorriso (triste mas, ainda assim, um sorriso) surge lentamente a partir do canto esquerdo destes lábios desertos, arrasta-se até aos meus olhos ausentes e apodera-se do rosto estranho que me observa do lado de lá do espelho...

 

Na cama, os lençóis imaculadamente brancos e alisados esperam por mim, esperam o calor do meu corpo cansado para dar sentido ao seu abraço terno no final de cada dia... Aqui, para além do som da água que corre ininterruptamente na fonte colocada no corredor da entrada, toda a casa se queda em silêncio e imobilidade, como se tudo tivesse ficado suspenso a partir do dia que decidiste não mais entrar por aquela porta... Ahhh, estas paredes e janelas que teimam em ser feitas de histórias tuas... Talvez seja por isso que se tornou hábito deslocar-me devagar, para não perturbar a memória dos tempos felizes, para não afastar os suspiros de prazer que se demoravam no nosso quarto enquanto, lentamente, te despojava das roupas para te fazer minha, para me fazer teu, para subirmos juntos ao Olimpo dos seres intemporais que lograram, um dia, reencontrar-se…

 

Os teus passos há muito que se não ouvem por aqui, mas ainda ecoam por toda a parte... O armário do meu quarto reclama regularmente pelas tuas camisas ausentes e, na dispensa, uma última embalagem de “Just Tea”, que resisto a deitar fora, prova-me que existiram noites de chá verde e cinema e abraços por baixo de um cobertor partilhado... No fim o que interessa é o amor… E no princípio também... Uma descoberta a dois e, por vezes, de forma solitária, uma história que se ganha ou perde num olhar, naquele olhar, naquele instante, naquele sopro... "Para sempre, é sempre por um triz", como canta a Ana Carolina... Mas é mesmo aí, precisamente aí, no eco desses silêncios e no espaço das tuas coisas que mais te procuro, que mais te sinto a falta, que mais me pergunto se “É perigoso a gente ser feliz”...

 

Desvio o olhar do espelho e por fim devolvo a toalha ao seu lugar, esta toalha que agora só serve as minhas mãos... Ahhh, o amor: esse desafio de delicadas palavras de cristal, gotas de chuva que se deitam como beijos nos lugares certos da alma, nuvens de algodão doce que enfunam velas em corajosos peitos abertos, arrepios de pele como sonhos lindos que, ao acordarmos, imediatamente se escapam por entre os dedos da consciência... Ahhh, o amor... Todo o universo contido na forma como o teu cabelo toca ao de leve no meu rosto quando te inclinas para me beijar e, nesse instante, me inunda com a luz a que pertenço desde o início dos tempos... Foi por um triz, não foi?...

 

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O vestígio dos teus dedos na pele do meu corpo…

por Entre Voos, em 15.06.16

 

Vou acordando aos poucos, ainda ensonado, ao encontro do fresco de uma chuva primaveril nesta semana de verão. Depois de dias plenos de calor, esta pausa desejada simula tréguas com a inevitabilidade das temperaturas habituais para a época estival. Ainda deitado percorro o quarto com olhos que, lentamente, se vão habituando à luz baça que entra pela janela do quarto completamente aberta… Dou conta dos sons que, a espaços cada vez mais curtos, evidenciam uma cidade que acorda, ao mesmo tempo que vejo em cima da mesa de cabeceira o livro que me faz companhia à noite até que Hipnos me reclame para si… Na verdade, já reli todos os livros da minha biblioteca: eles são um refúgio e um amparo…

 

Há uma beleza serena, segura, no conforto de um livro que se relê sem que, no entanto, se torne uma repetição, pois encontramos sempre coisas novas que nos tinham escapado na primeira leitura: o comentário revelador de uma personagem secundária; a descrição do tempo invernoso que ajudará a solucionar o mistério; o vislumbre fugidio do anel de prata em que a figura principal reparou existir na mão de quem o ajudava; ou a tensão que se sente no ar e nos arrepia a pele na descrição do momento em que os olhos de dois futuros amantes se encontram pela primeira vez… Enfim, como dizer isto? Os livros ajudam-me a preencher o tempo que o silêncio da tua ausência me grita constantemente… Completa-se agora uma eternidade a tentar que a memória de ti se dilua no espaço incomensurável que fica entre os segundos de cada hora repetida até à exaustão, uma e outra vez, todos os dias, todos os meses…

 

Mas talvez seja melhor começar do princípio… Como falar do teu sorriso? Como descrever o teu olhar ou o aperto da tua mão na minha? Como descrever o que sinto quando a lua se pendura lá no alto, plena, nas noites em que abro o baú das memórias?... Sabes quando aquela pessoa fantástica que acabámos de conhecer começa a rir e, nesse instante, eclipsa tudo o que nos rodeia e nos parece o som mais perfeito que alguma vez ouvimos? Sabes a emoção que sentimos por dentro quando percebemos que esse riso se deveu, de alguma forma, a algo que tenhamos dito?... Contigo foi assim: como se tudo o que tivéssemos feito ao longo dos anos nada mais fosse do que o cumprimento de um elaborado plano para nos juntar no momento certo, no dia certo, no instante certo em que eu ali estava para te enxugar as mãos e, assim, iniciarmos o nosso livro…

 

Releio-o e tudo o que encontro é sentimento… Como percorrer com palavras as tuas orelhas perfeitas, pequenas e atentas, senão divulgando os sussurros meigos que lhes confiei? Como detalhar a bondade dos teus olhos, senão relatando como me apaixonava perdidamente por eles em cada olhar que nos juntava? Como caraterizar as tuas mãos macias e sensíveis, senão através da completude que sentia quando as entregavas, com cuidado, nas minhas? Como falar da tua deliciosa pele de veludo senão recitando a forma como a água cristalina nos sacia uma sede de milénios? Como caraterizar o sabor dos teus lábios cor de cereja senão beijando-os uma e outra vez? Como adjetivar o paraíso que é o teu corpo perfeito, sem me referir ao encaixe irrepreensível que ele fazia com o meu, como que esculpido por um marceneiro intemporal para unir duas metades da mesma unidade? Como caraterizar o inebriante perfume que se desprende dos teus longos cabelos, sem referir o adocicado do mel ou a fragrância do incenso que se queima numa noite de verão?...

 

Levanto-me. Sacudo a cabeça para afastar os pensamentos… Entro para o duche, abro a torneira e deixo-me ficar ali tentando que a água insuportavelmente quente me adormeça os sentidos, tentando que essa água arranque os vestígios do toque dos teus dedos na pele do meu corpo… Deixo-me, inutilmente, ficar ali…

 

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