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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Aprendi com o outono a morrer para dentro de mim, para renascer na primavera do tempo...

por Entre Voos, em 04.10.15

 

 

"That’s not the beginning of the end

That’s the return to yourself

The return to innocence"

 

 

Acredito no Amor. Acredito que quando se encontra o Amor, ele se anuncia diante de nós, primeiro de forma única, como um fogo-de-artifício só visível para duas pessoas, fogo que não nos deixa indiferentes naquele instante e que depois, progressivamente, se vai revelando um pouco mais de cada vez, de formas diferentes, num silêncio feito de sorrisos, gestos e emoções como que para não ficarmos presos no seu deslumbramento e podermos, depois, irmo-nos revelando ao outro, sacudindo a poeira da nossa alma e renovando-a de vida. É a nossa crença no Amor que o torna real, que o torna possível, e são as nossas decisões ao lado desse Amor que o tornam inabalável. Crer no Amor é crer na alma do outro, nas suas mais profundas convicções e valores, é aceitar despojar uma parte de nós para acomodar parte do outro numa descoberta interminável de nós próprios e assim, em conjunto, albergarmos a completude que buscamos incessantemente, como o Graal da nossa existência, o culminar natural da nossa caminhada.

 

Aprendi com o outono a morrer para dentro de mim, a escalar montanhas interiores e a nadar sozinho nos lagos tranquilos que me sustentam, para renascer na primavera do tempo, mais forte e mais completo. “Escalar montanhas para ver o mundo e não para que o mundo nos veja.” (David McCullough Jr.), escalar montanhas para me encontrar, olhos nos olhos, e daí para sentir o mundo. O homem que nesse processo deixei para trás não é menos do que aquele que em mim renasceu, senão pelo facto de agora ter mais consciência de si e dos outros.

 

Nas relações, como na vida, é importante estar ciente da nossa quota-parte de responsabilidade nas decisões. Assumir, para nós, a responsabilidade que nos cabe no processo de decisão, coloca-nos ao lado da causa e não do efeito, lembra-nos que temos o controlo da ação afastando-nos do papel de vítima reativa: só fazemos o que queremos fazer porque naquela altura nos pareceu o melhor para nós. Trata-se de uma demonstração de maturidade a capacidade de enfrentar as consequências da nossa decisão, mesmo quando tomada em conjunto com outra pessoa. Atribuir ao outro a responsabilidade da nossa intranquilidade, é tão injusto para ele(a) quanto inútil para nós, já que vamos ter de viver com a responsabilidade e consequência da decisão. Nessa medida, não há decisões certas ou erradas, apenas aquilo em que eu acredito, com base nos meus valores, com base nos percursos que geraram aprendizagens… Na realidade, não existe fracasso, mas apenas aprendizagem: “O que se pretende que ilumine tem de aguentar o fogo” (Viktor E. Frankl). O Amor que queremos que nos ilumine tem de aguentar o fogo das consequências das decisões tomadas no aconchego de um abraço, no desejo curioso de duas pessoas que confiam na grandeza do que sentem.

 

Cada um de nós faz o melhor que pode em cada momento da sua vida, nas relações com o(s) outro(s). Ao longo desse caminho, eu não sou responsável pelo que os outros dizem ou fazem, mas apenas pelo que decidi fazer, com base nos meus princípios e valores. É assim que cada um de nós cria a sua realidade ou a interpretação interior dessa realidade, tendo como filtros os seus valores, os seus medos, as suas inseguranças e limitações, as suas crenças, a sua espiritualidade, a sua forma de ver e sentir o mundo. Por isso, todo o comportamento tem, na sua génese, uma intenção positiva: não magoamos de propósito, nem aos outros nem a nós. Decidir em pleno, é ter consciência do que nos faz tomar a decisão, sem assacar ao outro a responsabilidade da nossa resolução.

 

Sentado no retiro interior destes meus escombros em reconstrução, aquecido pela vontade de seguir em frente e de sempre aprender, refleti sobre o que realmente me move e sobre os pilares daquilo que, acredito, me sustenta enquanto pessoa numa relação.

 

Honestidade – A honestidade é o primeiro pilar que nos sustenta. Honestidade para com o outro, mas acima de tudo para connosco próprios: conhecermo-nos e darmo-nos a conhecer é o primeiro passo para uma relação assente na honestidade. Através da reflexão sobre os nossos sentimentos, os nossos atos, as nossas alegrias, os nossos medos, podemos “conhecer-nos” melhor e, por isso, ser mais honestos na forma como nos relacionamos com o outro.

 

Confiança – É a honestidade que existe entre os dois que permite que a confiança ganhe o seu espaço e desponte nas nossas ações. A confiança permite ser, agir e falar de forma honesta, sem receio de mal entendidos, permite transformar a relação num porto tranquilo onde podemos dizer tudo o que sentimos sabendo que o outro encontra na partilha a certeza da unidade do relacionamento.

 

Liberdade – Como resultado da confiança, sentimo-nos libertos para tudo dizer, com cuidado e firmeza, para experimentar, voar, conhecer, procurar e, dessa forma, assumir a relação como um espaço de liberdade e respeito pelo outro, sem necessidade de se estar sempre a colocar em causa a robustez do que se sente. É libertador sentir que uma pessoa está connosco porque quer, porque confia, porque se sente segura no Amor que brilha nos olhos do outro.

 

Espiritualidade – Uma relação completa-se na sua dimensão espiritual, no sentido da sacralidade de duas almas únicas que se encontram, que se partilham, que se desfrutam, que descobrem e superam juntas as montanhas interiores da sua relação para logo se deliciarem descansados nos prados verdejantes de um Amor milenar, eterno. É a sacralidade dessa união espiritual que faz crescer a empatia, a compreensão, a capacidade de entender as dores e as alegrias do outro como se fossem nossas, que nos faz compreender o valor e a raridade de um encontro assim, um Amor com o nosso nome escrito lá no alto, nas estrelas…

 

Completude – Finalmente, acredito que uma relação assente na honestidade, sedimentada na confiança, que nos deixa sentir livres por forma a conhecermos e desenvolvermos a dimensão espiritual da relação e de cada um, nos transporta para um estádio de completude natural, de tranquilidade e paz, em que compreendemos que encontrámos o destino que procurámos em todos os nossos caminhos, em que tudo está certo e é complementar, em que encontramos sentido para a nossa jornada e damos conta de estar a sorrir sem razão, enquanto seguramos um café na varanda e olhamos para aquela pessoa fantástica que, distraída, ocupa o sofá da sala e a parte mais importante do que somos, num regresso diário à inocência.

 

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