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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Conseguirão as palavras falar de amor com a mesma intensidade que um sorriso num sussurro?

por Entre Voos, em 20.10.15

 

 

Olho o mar tranquilo à minha frente mas apenas consigo sentir as ondas vigorosas que, sem descanso, se abatem na praia deserta que trago dentro do peito. Desvio insistentemente o olhar do horizonte sereno, neste plácido final de tarde emoldurado por um sol de outono, para o pousar na folha onde escrevo sobre o mar revolto que trago dentro…

 

Escrever é uma maneira de materializar os nossos fantasmas para os aprisionarmos na forma rigorosa e tangível das palavras selecionadas com cuidado… É como se, depois de estarem alinhados num texto, deixassem de estar dentro de nós e assim pudéssemos, com o simples amarrotar da folha, deixar que o vento se encarregasse de nos limpar o pensamento, a pele e a alma. É como se pudéssemos, finalmente, descansar, nem que apenas até ao final do dia, onde os silêncios da noite voltam ruidosos como velhos amigos cheios de notícias e palmadas nas costas, dispostos a mais uma noitada... É por isso que cada palavra que escrevemos tem mundos infinitos dentro de si, corpos reais, lugares sentidos, emoções vívidas, incessantes decisões sobre guerra e paz, vitórias e derrotas, braços caídos e gritos de alegria… Escrever é arquivar a vida, é pacificar o passado para arranjar espaço ao futuro…

 

E depois ela chegou, atraente como sempre foi, segura como sabe que é, passeando devagar junto ao pequeno muro caiado que separa a esplanada do café do areal, sem conseguir convencer ninguém que a observasse de que a única coisa que lhe interessava hoje fosse o mar lá ao longe e não as histórias inacabadas que povoavam o seu pensamento. Não me viu, claro, de tão ausente que estava, mas pouco depois ao percorrer o espaço com o seu olhar pensativo fez uma expressão de surpresa quando os nossos olhares se cruzaram, e sorriu envergonhada, como se tivesse sido possível eu ter escutado o eco das suas reflexões mais íntimas...

 

Caminhou hesitante para se sentar numa mesa perto da minha, como se desculpando das ondulações escusadas provocadas pelo seu caminhar na tranquilidade aparente do espaço que eu ocupava… “Bom dia…” sussurrou, oferecendo-me um sorriso genuíno, olhando depois para os farrapos dos meus pensamentos materializados nas frases que tinha deixado dispersas na superfície do papel. E foi a minha vez de me envergonhar, devolvendo-lhe o cumprimento num sorriso franco e dobrando a folha em cima da mesa para afastar as memórias de ti...

 

Quando o empregado me veio trazer um novo café, levou com ele as linhas amarrotadas do passado e, aproveitando o momento em que olhaste para nós, pedi-te com simpatia um lenço, apontando para os meus óculos em cima da mesa, quando o que realmente queria era abraçar-te, voltar a agarrar as tuas mãos macias (como o fiz há séculos atrás, naquela sala, com uma toalha mágica), e começar a escrever uma nova história: conseguirão as palavras falar de amor com a mesma intensidade que um sorriso num sussurro?...

 

"Então? A perder-se nas palavras ou a tentar encontrar-se nelas?"- perguntaste calmamente, com o teu habitual sorriso doce, com o teu inconfundível perfume a embriagar-me, enquanto eu mergulhava nos teus olhos e pedia que nos resgatasses... 

 

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