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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

“Estou com saudades de ti, meu desejo…”

por Entre Voos, em 02.11.14

 

A diferença de horas fazem-me estar acordado enquanto tu dormes. Já passa da meia-noite aqui...

 

Sabes que acordo sempre contigo dentro de mim? Os meus primeiros pensamentos do dia são-te dirigidos, para tirar partido da sonolência e do calor que começa a entrar no quarto, enquanto percorro a cama de uma ponta à outra à tua procura… Que sonhos te aconchegam à noite na cama, quando te deitas? Que ausências e saudades se espalham nos teus lençóis? Que medos te incomodam e a quem dás a mão nessa altura? Que destino procura a tua pele na noite fria? Quantos dos teus sorrisos passam por mim? Como será o teu acordar? Imagino o teu beijo, o teu corpo a aninhar-se no meu, os teus primeiros olhares tranquilos e deliciosos enquanto os meus braços te puxam para mim, o teu perfume a envolver-me e o olhar dos teus olhos bem dentro dos meus...

 

Nunca pensei que amar fosse assim, nem que um grande amor poderia perder-se. Creio que fiz tudo mal: deslumbrei-me com o que sentia, com o que me fazias sonhar, com a perfeição dos nossos sentimentos, com a pureza dos teus olhos… “Estou com saudades de ti, meu desejo…”. É de facto muito difícil "ser" sem ti, ficar assim a olhar para o que poderia ter sido, a olhar para a imensidão do amor que transborda do meu peito todos os dias quando, de manhã, os meus braços insistem em procurar-te ao meu lado nos lençóis e a minha pele anseia pela frescura da tua…

 

Esta casa que é o meu coração é habitada por ti, a título definitivo, e sem espaço demarcado: todo ele é teu. Deambulas por aqui sem te fazeres anunciar, ora no perfume que a brisa me traz, ora na lembrança de uma praia onde nos amámos, ora num riso que me faz voltar a cabeça… Em tudo o que existe, és tu que me guias… Apetece-me ir ter contigo quando chegar a Lisboa, apetece-me dar-te mimo, ouvir a tua voz quente, tocar a tua pele macia, dar-te um abraço pacificador, beijar as tuas mãos...

 

Aceita este poema da Florbela, que transporta o meu sentimento até ti:

 

"Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...

Se o sonho foi tão alto e forte

Que pensara vê-lo até à morte

Deslumbrar-me de luz o coração!

 

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!

Que tudo isso, Amor, nos não importe.

Se ele deixou beleza que conforte

Deve-nos ser sagrado como o pão.

 

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,

Para mais doidamente me lembrar

Mais doidamente me lembrar de ti!

 

E quem dera que fosse sempre assim:

Quanto menos quisesse recordar

Mais saudade andasse presa a mim!

 

(Saudades, Florbela Espanca, "Livro de Sóror Saudade")

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