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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Inundar a noite com o brilho da estrela que somos...

por Entre Voos, em 08.10.15

 

"God, tell us the reason youth is wasted on the young
It's hunting season and the lambs are on the run
Searching for meaning
But are we all lost stars, trying to light up the dark?"

 

 

Ocupamos o tempo e os pensamentos com coisas sem importância. Somos tarefeiros da urgência, na melhor das hipóteses talvez tenhamos a sorte de um beijo apressado no rosto de quem nos quer bem, sem tempo para uma história no final de dia ou para um abraço apertado, olhos nos olhos, de luz acesa: é difícil olhar nos olhos do passado, mesmo quando ele ocupa um lugar cativo na nossa cama há vários anos. Apesar disso, acreditamos que existe um propósito, um significado nos nossos gestos e ações, sem considerarmos que o mundo lá fora, de tão caótico, faz passar incógnito nas janelas do tempo quem nos está mais próximo e apenas nos deixa efémeras sombras pintadas na brisa do vento, com traços indistintos onde se vão esbatendo sentidos e memórias. Mesmo quando o espelho nos devolve a imagem de um estranho, continuamos a sair para a rua, para a nossa rotina habitual, onde nos sentimos úteis na dispersão e seguros na multidão, incógnitos até de nós próprios...

 

E um dia, de repente, na prateleira da casa de banho apenas uma escova de dentes ocupa o copo onde costumavam estar duas, e de manhã o silêncio da casa já não é acordado pela azáfama dos resmungos e protestos dos mais novos sobre a roupa errada, e da cozinha já não vem o cheiro de café acabado de fazer nem o barulho dos pratos onde se irão colocar as torradas e os cereais. E um dia, de repente, sentimos a vulnerabilidade das nossas certezas, do nosso “para sempre”, olhamos à nossa volta e sabemos que os filhos já não voltam ao nosso colo, que o diálogo é automático e as palavras se arrastam a custo por entre monossílabos: estranhos em nós.

 

E um dia, de repente, ao sentirmos com mais intensidade a falta da mão que nos tocou a pele, ao sentirmos saudades do futuro que nunca aconteceu, fechamos a porta de casa (nada mais resta lá dentro) e desta vez saímos para a rua determinados, tranquilos, desta vez caminhando devagar e decididos a disfrutar do momento e a olhar para a paisagem e então, como que pela primeira vez, reparamos no cheiro a terra húmida, grávida de mil futuros possíveis, reparamos no ar fresco e lavado pela chuva que esta noite cai lentamente, quase suspensa no tempo, reparamos no brilho das estrelas refletidas naquelas poças de água que nem sequer nos incomodamos a tentar evitar, enquanto ecoam ao longe carros que passam com pessoas atrasadas para um beijo impaciente e nós, rejuvenescidos, sabemos que as noites precedem dias claros e então dançamos, rodopiamos e rimos e sentimos que viver não é só apertar a mão delicada que acaricia a nossa: é apertar o corpo todo, apertar até ao fundo de nós mesmos, até inundarmos a noite com o brilho da estrela que somos, nos lábios que nos sorriem…

 

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