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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Na quietude notívaga das horas de insónia onde regularmente te encontro...

por Entre Voos, em 17.12.15

 

Chove. A noite quedou-se de mansinho ao meu lado. Não dei pela sua chegada, mas trouxe consigo tempo e memórias para partilhar. Sirvo-me de um James Martin’s sem gelo, como sempre, e coloco Bach a tocar para mim, a tocar para nós. Deixo que os acordes, tão familiares como o teu perfume, pintem progressivamente a sala de estar e me conduzam para o sofá onde a tua ausência nos acompanha. Penso-te: tanta coisa por dizer...

 

Falar-te-ia do matinal acordar etéreo dos grãos de pó, hipnóticos, numa dança harmoniosa, contínua, sustentada pela desafinação aparente dos seus movimentos que, no meu quarto ainda obscurecido, procuram os raios de luz que vencem as frestas da persiana semiaberta e se espraiam nos lençóis desalinhados da cama onde a forma do teu corpo, já acordado, reclama o espaço das noites loucas e das manhãs aninhadas em abraços cúmplices…

 

Ou do beijo apaixonado de "até logo" soprado pelos teus olhos, num gesto tão genuinamente belo e naturalmente distraído como a espessura incomensurável do nada que delimita uma bola de sabão multicolor que rodopia, única, robusta, na momentânea existência de quatro eternos segundos para, dali a pouco, nos salpicar de alegria agridoce da sua história, da sua partida…

 

Ou da felicidade desenfreada, simples e verdadeira, que sentimos quando passeamos os dois de mão dada, que transborda do riso das crianças que correm atrás dos pombos na praça da vila, só porque sim, só porque apetece naquele instante abandonarmo-nos à existência sem planos, a ser felizes ali, ao lado daqueles nossos amigos acabados de conhecer e que serão os nossos melhores amigos para toda a vida que existe entre o ali e o final daquela correria, que abraçaremos ao cortar a imaginária linha da meta ao pé do banco de madeira pintado a verde, no limite da praça, vencedores, ofegantes, abraçados, ruidosos, como se tivéssemos acabado de viver a aventura mais significativa de toda a nossa existência, naquela praça, naquele instante, único, eterno, apaixonados…

 

Ou do arrepio que os meus lábios quentes provocam na tua pele macia, como a carícia de uma brisa fresca no final de uma tarde de verão, à beira mar, na praia onde te levei para me declarar eternamente teu, para te entregar o que de mais sagrado e mais profano tenho, naquela praia onde quis parar o tempo para nos demorarmos a olhar aquela cascata perfeita, para ficarmos ali, perpetuamente ali, de vidas dadas, naquela praia onde a leveza das tardes é prometida na espuma do mar que adorna o teu corpo nu, onde a certeza das noites loucas transparecem no olhar desafiador com que me despes, e onde a firmeza do amor só encontra paralelo na robustez das falésias que, sem idade, nos rodeiam e protegem…

 

Ou da paz tranquilizadora que me invade no voo do flamingo que aparece, em câmara lenta, no sorriso sincero que se desenha progressivamente no teu rosto quando me apanhas a olhar para ti, eu inebriado pela doçura dos gestos quotidianos enquanto preparamos o jantar e conversamos sobre coisas simples, eu cativado pela fluidez graciosa da tua serenidade, da tua esperança, da tua força, eu conquistado ao lugar certo de todas as coisas na tua vida...

 

Ou do som cristalino e sempre renovado das gotas de chuva lá fora, ao princípio da noite, com o lume a crepitar na lareira da sala e dois copos de vinho tinto esquecidos na pequena mesa de apoio enquanto nos amamos lentamente, olhos nos olhos, para lá da pele, para lá do corpo, para lá do tempo, no lugar mágico onde as almas se encontram e partilham as memórias intemporais de um amor inevitável…

 

Ou do significado imenso contido na beleza geométrica de uma teia de aranha, tão frágil, tão resistente, como a vida, como os vínculos que nos ligam para sempre às pessoas que nos marcam, tão frágeis e, no entanto, tão resistentes, que perduram nas saudades, nos lugares, nos momentos, nas músicas, na quietude notívaga das horas de insónia onde regularmente te encontro e conversamos, choramos e rimos…

 

Falar-te-ia dessas horas suspensas onde nos encontramos por dentro, do amor que te tenho para sempre, da falta que me fazes na substância dos dias e da forma sempre inesperada como te despedes devagar, dissipando-te com a primeira claridade da manhã, deixando-me apenas com vestígios do teu perfume e sinais de um zimbro lacrimoso que me cobre o rosto e emoldura o copo já vazio que teimo em acariciar, distraído, na minha mão… Nenhum sopro de clemência existe no silêncio de quem se ama...

 

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