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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

No dia em que nos apaixonámos...

por Entre Voos, em 19.09.15

 

 

Quando entraste por aquela porta dentro, a nossa vida nunca mais foi a mesma. Entraste na sala como quem conquista o mundo, segura, leve, suficientemente distante, agradavelmente bonita, um tailleur claro com casaco e calças às riscas castanhas, uma camisa branca com ligeiros folhos a compor o look de profissional, uns sapatos de salto alto que, elegantemente mas de forma assumida, realçavam as tuas deliciosas pernas altas…

 

Olhaste para a tua direita e com a mão esquerda ajustaste o teu longo cabelo louro, macio, com aquele teu delicioso perfume que ainda hoje não sai das minhas mãos... Posso jurar que naquele instante o nosso mundo parou, por momentos senti a espessura do ar enquanto o meu rosto se voltava para o anjo que tinha acabado de entrar e cujos olhos, lentamente, percorreram a sala até encontrarem os meus e neles se demorarem uma eternidade impercetível naquele segundo que selou o nosso caminho… Nesse segundo recordámos tudo o que já tínhamos vivido, reconhecemos as cicatrizes e as alegrias um do outro, reconhecemos a alma e a pele um do outro, sentimos o sabor das nossas bocas e a sensação das nossas mãos dadas, nesse fugidio instante a memória de um antigo amor, completo, assaltou-nos, para logo nos deixar com a mesma rapidez com que nos assolou… Quando voltei a olhar para ti, acordado pelo toque no braço de quem estava ao meu lado, saías já pela porta mais distante da sala contígua, deixando no ar um rasto de luz e tranquilidade que acariciou os meus lábios e me fez sorrir por dentro como há muito tempo não conseguia… Naquele dia saímos dali provavelmente sem pensar um no outro, mas com a íntima certeza de que alguma coisa teria acontecido: havia um desconforto agradável na forma como encarávamos o início do ano e, sem sabermos muito bem porquê, havia um formigueiro na barriga, a falta de um toque desconhecido na nossa pele…

 

Nos dias seguintes cruzámo-nos algumas vezes, tu continuavas elegante, profissional e distante, eu sorridente e sem compreender muito bem o que me levava a tentar saber junto das outras pessoas quem eras, onde estavas, quais as tuas salas, de onde vinhas, com quem vinhas, porque tinhas vindo… No bar estavas sempre sorridente, embora uma sombra fosse percetível nos teus olhos se olhássemos com atenção; sempre profissional, embora amável; cordial, embora sempre dando a ideia de estar atrasada para ir a um qualquer sítio… até que naquele dia, finalmente, estavas sozinha a beber um chá, recordo-me, naquelas mesas altas de tampo laminado branco, sem cadeiras, numa manhã de outubro em que o sol ainda aquecia o ar naquele outono ameno… decidido, aproximei-me de café na mão, tendo tu anuído quando te perguntei se podia partilhar da tua mesa, mesmo sabendo que havia mais 4 mesas completamente vazias à nossa volta… Anuíste porque eu era insistente, talvez chato mesmo :o), mas foi a melhor coisa que fizemos na vida: eu ir ter contigo, tu aceitares que eu tomasse o café ali, naquele dia.

 

E conversámos, conversámos!, as palavras e as frases foram surgindo, os sorrisos ficando mais naturais, atrevi-me até a tocar a tua mão distraidamente (oh! a emoção que sentimos, a minha pele a reconhecer a tua, a tua pele a arrepiar-se, como ainda hoje, como se tudo o que somos fizesse sentido em cada instante em que nos tocamos!)… Foi nesse toque, sei-o bem, foi nesse toque em que propositadamente me demorei na tua pele mais dois segundos do que o estritamente necessário, que os meus muros começaram a ruir, foi nesse instante que as minhas certezas se tornaram tu, tu à minha frente, tu e o som do teu riso, nós e mais nada à nossa volta, nós e aquela mesa onde tomavas o teu chá quente e eu o meu café tornámo-nos o mundo todo naquela manhã e juro que, como sempre que estamos juntos, o tempo parou para nós dois…

 

No dia em que nos apaixonámos, sem ainda termos consciência, tínhamo-nos apaixonado outra vez, como sempre o fizemos de cada vez que as nossas almas se encontraram na infinidade de vidas que já vivemos… No dia em nos apaixonámos, começou a escrever-se a mais bonita história de amor que o mundo alguma vez viria a conhecer...

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