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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Cheguei tarde a casa e, como sempre, tenho-te saudades…

por Entre Voos, em 29.11.15

 

Cheguei tarde a casa e tenho saudades tuas… Amo-te, sabes? Sei que não sei escrever como ele, as frases certas, a métrica correta, as palavras cativantes, a sedução da ausência de uma história... Mas amo-te. Existe um silêncio enorme, palpável, à minha volta, mesmo quando rodeado de pessoas…. Levo os restos do nosso amor para a cama, para me aconchegar, como se de um lençol se tratasse, mas não consigo afastar o frio da tua ausência… Gostava de ter dançado contigo uma dança completa, poderíamos tê-lo feito pelo menos uma vez… mas nunca o fizemos… Gostava de ter rodopiado contigo cintada nos meus braços: que memórias teríamos agora? Que música nos teria envolvido? Que palavras teríamos sussurrado? Que beijo teríamos entregue aos lábios um do outro? Que promessas teríamos trocado? De que cor pintaríamos este nosso amor?...

 

Tenho saudades tuas… E a imagem dos nossos filhos passa-me pela janela dos olhos. Tenho a certeza que as sapatilhas deles alinhadas ao pé da nossa cama ainda te fazem sorrir tanto como da primeira vez… Um acontecimento não passa de um acontecimento até que alguém lhe dê significado e tu deste-nos significado, tempo, espaço e cores… E por isso pinto o nosso amor com a cor do riso quente dos nossos filhos enquanto se banhavam na cascata da nossa praia secreta, inocentes e felizes. Pinto o nosso amor com a cor do seu riso enquanto disputavam um lugar ao nosso lado para ver um filme, ou para poderem justificar a posse do primeiro crepe que fizemos. Pinto o nosso amor com a cor do que senti dentro de mim de cada vez que cheguei a casa e fui envolvido pelos cheiros familiares da vida, pelo som de passos a correr no corredor, pelo som da tua voz meiga ao me receberes, perfeita...

 

Tenho saudades tuas... E nos meus sonhos pinto o nosso amor com a cor transparente e quente das lágrimas que chorámos juntos ao entardecer naquela praia, depois de ter feito centenas de quilómetros só para te ver… Nos meus sonhos pinto o nosso amor com a cor da tua voz tranquila à mesa do café com o mar ao fundo enquanto, cúmplices, tomávamos o pequeno-almoço. Pinto o nosso amor com a cor do beijo que te dei nas pálpebras dos teus olhos de cristal e com a cor do arrepio que um toque dos meus dedos te provocava na pele nua. Pinto o nosso amor com o tom macio do teu longo cabelo de ouro e com a intimidade excitante do teu perfume. Pinto o nosso amor com a cor das nossas luxuriosas noites de sábado e com o azul plácido das manhãs de domingo em que te abriguei nos meus braços…

 

Tenho tantas saudades tuas... E pinto o nosso amor da cor das estrelas, lá longe, onde sempre te disse que os nossos nomes estavam gravados. Pinto o nosso amor da cor dos teus olhos, da cor da tua pele, da cor dos teus lábios, da cor do teu coração, da cor da tua bondade, da cor da tua força e da tua fragilidade… Pinto o nosso amor da cor do perdão e com os tons cuidados de um desejado regresso a casa no final de uma viagem demasiado longa… Pinto o nosso amor com todas as cores que faltam aos dias cinzentos… Pinto o nosso amor com as três letras que deixavas no final dos pequenos recados que escrevinhavas nos post-it colados no ecrã do meu computador: GMT.

 

Cheguei tarde a casa e tenho-te saudades… Sei que não sei escrever como ele, as frases certas, a métrica correta, as palavras cativantes... Mas tenho a nossa história e pinto o amor, como sempre o farei, com a cor do teu nome…

 

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Ensinaste-me a ver de olhos fechados, sabes? Foi quando vi melhor e mais longe…

por Entre Voos, em 27.11.15

 

 

“Ter-te foi como respirar pela primeira vez…” – confidenciou-lhe enquanto lhe agarrava as mãos dentro das suas… "Como o poderia descrever?" – pensou para si – "Não é fácil falar daquilo que nos forma ou do que nos dá forma." Fechou os olhos e pousou as mãos tão cheias de esperança, devagar, nos joelhos, enquanto tentava explicar-se: “Ensinaste-me a ver para lá do visível. Em ti descobri novos horizontes: cordilheiras de neve com picos inacessíveis; planícies verdejantes e cheias de vida; uma casa de madeira lá longe e um alpendre onde passar a tarde; emoções com a intensidade da vida toda; vi passado e futuro no brilho dos teus olhos; na palma das tuas mãos descobri mundos sem fronteiras e a minha alma desnudada… Contigo vivi coisas e escutei sonoridades para as quais ainda não foram inventadas palavras que as possam descrever…”, disse-lhe, deixando o olhar demorar-se para lá das janelas do café.

 

A chuva regressou mais forte, enquanto o cacau lhe aquecia as mãos frias do tempo… “O toque da tua pele não é apenas o toque de uma pele” – esclareceu – “mas o lugar certo onde moro e me abrigo, onde me visto, onde me prolongas a alma e perpetuas o desejo.”... Enquanto o olhar dele subia das suas mãos para encarar o rosto bonito que o fitava, continuou: “Os teus olhos não são apenas olhos que me veem, mas o rio onde mergulho e encontro a paz e tranquilidade que preciso, são um porto de abrigo. O teu beijo ensinou-me que esse simples ato pode ser mais que um tocar de lábios: é tanto a tempestade furiosa que me tira o fôlego, como a brisa refrescante que me sossega numa tarde de verão, enquanto descansamos abraçados numa cama de rede…”

 

“Que queres que te diga?...” – desculpou-se, para preencher o silêncio dela – “Quando a tua alma tocou a minha, foi aí que aconteceu… libertaste as minhas memórias... quer dizer, as memórias de um passado distante, as memórias de um amor mais antigo que o tempo, memórias do teu olhar apaixonado, dos nossos filhos nascidos e daqueles por nascer… a memória de uma lágrima quente a escorrer de alegria num sorriso teu, a memória de uma doce melodia transportada pelo teu riso, ou a textura de seda que as tuas palavras cuidadas entregam ao meu abraço.”

 

Afastou-se um pouco para trás quando ela lhe tentou silenciar as palavras nos lábios com dois dedos, para não se lembrar de quão macias as suas mãos conseguiam ser... Endireitou-se, inevitável, e continuou: “Ensinaste-me a ver de olhos fechados, sabes? Foi quando vi melhor e mais longe… Acho que é isso, o amor... E com o amor vem a fé e a esperança… Fé no que sentimos, esperança no que os outros sentem… És a linguagem com que o mundo me fala… És a forma do meu coração… E é isso que não te perdoo, sabes?: passar a vida ao lado da tua ausência... Não te perdoo por me teres ensinado a amar assim..." Depois, parecendo por momentos hesitar em tomá-la nos braços para a beijar, optou por citá-la, como se de um ponto final se tratasse: "Se não era para me fazeres voar, não me devias ter tirado os pés do chão!"...

 

Num relance, reparei que tocava no seu dedo anelar da mão esquerda, na aliança de prata, baça, que provavelmente tinham comprado juntos, num dia feliz... Retirou-a lentamente do dedo e colocou-a em cima da mesa, perto dela, como quem lhe pedia para não a receber de volta, como quem entregava ali a vida toda, como quem depositava ali o coração, rendido à mulher que amava... Passou ao lado da minha mesa quando saiu para o dia chuvoso, sem olhar uma última vez para trás e sem reparar no meu embaraço por inadvertidamente ter ouvido aquela conversa... Não me pareceu que ele a fosse esquecer nunca, a ela, à mulher da sua vida...

 

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"Para pecadores como eu, Deus envia anjos como tu…"

por Entre Voos, em 25.11.15

 

 

Arrepias-me, sabes?… de uma forma agradável, aprazível, excitante… Sempre tiveste esse efeito em mim… Na primeira vez que te vi, sem saber porquê, senti um arrepio percorrer o meu frágil corpo de mulher, um daqueles frémitos que começa na barriga como uma borboleta e se espalha pelo corpo todo como uma tempestade elétrica, deixando arrepiada a pele dos meus braços e os pequenos pelos da parte detrás do pescoço eriçados, deliciados… Quando me beijaste, como só tu sabes beijar estes meus lábios cor de cereja, afagando os meus cabelos de ouro daquela forma desajeitada mas que sempre me fez sentir a excitação do beijo mais sincero do mundo, entreguei-me sem reservas ao teu abraço forte, protetor, como se te entregasse o meu mais precioso tesouro, para cuidares e iluminares…

 

Quando disseste que eu era o teu santuário deixaste-me desassossegada: tu, pecador confesso, para que quererias uma inocente como eu?... “Para pecadores como eu, Deus envia anjos como tu…” disseste-me nessa altura, olhos nos olhos, guardando as minha mãos pequenas e macias dentro das tuas, seguras e decididas, como se o mundo todo se rendesse ali naquela evidência tranquila e inevitável e, assim, fizesse sentido…

 

Depois tomaste este meu ser – puro e doce como a mulher que sou – e dedicaste-lhe o teu tempo, paciência, dedicaste-lhe tudo o que eras, tudo em que sabias ser o melhor, entre o devoto e o pecador… Ajoelhaste-te perante a sacralidade do nosso amor e do significado espiritual do nosso encontro, crescemos nesse amor intemporal, elevámo-nos, mas também despertaste as gárgulas que velavam os meus pesadelos, as minhas angústias, o meu lado lunar… Nessa dança entre anjos e demónios, nessa dança que cria e destrói mundos, nessa dança tentadora, pura e ao mesmo tempo maculada, dançámos embriagados pela força do nosso amor, demasiado perto da vertigem e depois, depois já havia mais noite que dia dentro de cada um de nós, ouvíamos sons de cristal a fender e tambores de antecipação, e depois… depois já era demasiado tarde...

 

Nessa dança ébria vi-me apartada, vi-me longe de mim e do que sou e, nessa distância interior, também me perdi de ti, meu amor… Agora estou desaparecida, mas tento com todas as minhas forças encontrar o caminho de volta a mim mesma, de volta à tranquilidade, que me devolva o perdão, que me devolva a luz que, apesar de trémula, ainda brilha na essência do que sou: uma mulher fantástica... Mesmo sabendo que me procuras (nunca deixaste de me procurar, pois não? Nem nunca vais deixar de o fazer, prometes?) não consigo ver-te enquanto não me conseguir ver a mim própria… Um dia… bem! Um dia vou encontrar-me e, assim, encontrar-nos... Um dia vou ter contigo a essa varanda onde me esperas, e voltaremos a aquecer-nos bem dentro do nosso abraço terno, eterno, com a tua barba a tocar-me sedutoramente o rosto, e seremos mais que dois: seremos tudo...

 

Sim, ainda me arrepias… Cada vez que o meu olhar distraído deixa as saudades divagarem para dentro do meu coração, sinto que a tua presença doce, segura, rendida e apaixonada ainda me arrepia, sabes?... Sempre tiveste esse efeito em mim, como a chegada dos pássaros que anunciam uma primavera antecipada e transformadora, uma promessa de vida, uma promessa de "para sempre"…

 

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Finalmente, domingo de manhã...

por Entre Voos, em 22.11.15

 

Finalmente, domingo de manhã…. Volto a deitar-me ao teu lado e a tua respiração pausada tranquiliza-me e ilumina-me o rosto para mais uma manhã de domingo, como se fosse a primeira vez que acordássemos juntos… As memórias da noite de sábado estão visíveis no chão do quarto, espalhadas como só amantes o sabem fazer… O lençol branco que comprámos juntos, com a fina risca azul, cobre por fim a tua pele nua, branca como as nuvens, macia como seda, saciada de vida como um prado acabado de regar…

 

Finalmente um domingo de manhã, contigo ao meu lado…Como foi que te disse ontem? “Quero acordar tarde, com o cheiro do teu corpo a impregnar a minha pele, com os teus dedos interlaçados nos meus e um sorriso enorme no rosto! Quero a eternidade de um dia inteiro à nossa frente, tu ao meu lado, pequeno-almoço tardio, quero a promessa de uma tarde que te perpetuará no meu abraço, uma tarde de sol no parque ribeirinho, a tomar café e a olhar para ti, deliciado”.. e é isso…

 

Finalmente domingo, uma manhã com a tua paz aninhada no meu abraço, com a tua pele a vestir-me, com a tua alma protegida pela minha, com o meu olhar a descansar no teu rosto, com o meu coração a bater dentro do teu peito, com a eternidade aqui mesmo ao pé de nós… Beijo-te a face morna, e adoro a forma como abres os olhos, devagar, e imediatamente escondes o rosto com as mãos, a rir baixinho, e te enroscas em mim como quem descobre que sou uma parte sua, como se a coisa mais surpreendente do mundo fosse descobrires no meu olhar, todos os dias de manhã, que te adoro e te pertenço...

 

Finalmente uma manhã de domingo para nós!... Com um sorriso no rosto, beijo-te ao de leve nos olhos, depois nos lábios, depois segredo-te ao ouvido, num murmúrio, todos as exclamações de prazer que construímos na noite de ontem, enquanto tu finges que me tentas afastar para, ao invés, te aninhares completamente nesta vida que vamos construindo, inundada com o teu distinto perfume, com a bondade no teu olhar, com a certeza das nossas mãos entrelaçadas, com a inevitabilidade de um amor antigo… Levanto-me para ir buscar o pequeno‑almoço que momentos antes tinha preparado para nós, como gostas: torradas com pouca manteiga, omelete com orégãos, chá verde com gengibre, dois kiwis descascados e fatiados, um post-it amarelo com um coração desenhado dentro de uma janela, enquanto um incenso queima lentamente no corredor…

 

Finalmente, domingo de manhã, e sorrio…. O som da tua voz ao meu lado, enquanto conversamos sobre tudo e sobre nada, serena-me, completa a minha alma, preenche o quarto, preenche a vida…. E aqui estamos, eternos, completos, como foi escrito nas estrelas, com o tempo parado lá fora e com o sol a brilhar aqui dentro, no paraíso…

 

 

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Noites de sábado...

por Entre Voos, em 19.11.15

 

“Domingo! Quero um amor como as manhãs de domingo… Como na canção, sabes?” – disse-lhe logo que entrou em casa… No aparador da entrada, o pequeno buda estava ladeado por duas velas acesas, enquanto à sua frente, lentamente, o incenso incandescente libertava a habitual fragância Nag Champa que ela me habituou a preferir e, na cozinha, a mesa estava já preparada e os castiçais acesos para o nosso ritual do jantar de sábado. Riu-se alto, levando a mão ao cabelo, sedutora como só ela sabe ser, fitando-me de cima dos sapatos pretos de salto alto, camisa branca suficientemente insinuante para eu perceber o sutiã que torneava os seus seios voluptuosos, a saia preta, justa, meias que deixavam adivinhar provocantes ligas, como ela sabia que eu adorava…

 

“Quero acordar tarde, com o cheiro do teu corpo a impregnar a minha pele, com os teus dedos interlaçados nos meus e um sorriso enorme no rosto! Quero a eternidade de um dia inteiro à nossa frente, tu ao meu lado, pequeno-almoço tardio, com crepes, Nutella e a confusão dos filhos, quero a promessa de uma tarde que te perpetuará no meu abraço, uma tarde de sol no parque ribeirinho, a tomar café e a olhar para ti, deliciado…” – reclamei, mas já a sorrir com a promessa denunciada pelos seus gestos…

 

Ela avançou para mim, desabotoando um botão da camisa, depois outro, e outro ainda… “Mas não hoje, certo?” – perguntou, desafiadora, enquanto me empurrava, explícita, para o quarto – “Hoje eu não te quero aí, deliciado, a olhar para mim... Não agora...” – continuou, mordendo o lábio inferior, deixando cair propositadamente a saia, materializando as ligas que idealizei, concretizando o meu desejo libidinoso… “Hoje quero-te para mim, hoje quero possuir-te, hoje quero usar-te para meu prazer… e, por favor, deixa a música a tocar…”

 

Não tirou os seus olhos dos meus enquanto, decidida, me desabotoava a camisa sem me deixar tocar-lhe… O calor do seu olhar acendeu-me o desejo como a sede que invade todos os sentidos de um náufrago. “Amanhã…” – sussurrou-me ao ouvido – “Amanhã teremos a nossa manhã de domingo… prometo… mas não hoje...” disse, enquanto o seu corpo nu, serpenteando, deslizava para cima do meu e, deliciosamente, me ensinava todas as variações do amor pecaminoso de uma noite de sábado…

 

 

 

 

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