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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

No mar que trago dentro, és o último navio a partir...

por Entre Voos, em 28.12.15

 

Resgatei o olhar ao horizonte que entardecia e confirmei mais uma vez, no relógio Hugo Boss que me ofereceste, que as horas demoram a passar. “Quando o último navio partir ir-me-ei embora.” – pensei… O final de tarde junto ao rio veste as cores cinzentas das nuvens que velam o céu e sussurra brisas frescas que anunciam a chuva que se aproxima no horizonte. Para além de mim, na esplanada do café apenas está um casal de namorados sorridentes, felizes, a tomar um café enquanto, no chão, incansável entre os pés de uma cadeira, um copo de papel risca lentos movimentos de vaivém embalado pelo vento. Na marina, os barcos dançam ao sabor dos movimentos tranquilos e poderosos de uma valsa íntima de corpos bem juntos, dirigida pela ondulação. O rio, apesar de irrequieto, testemunha silenciosamente o tráfego de entradas e saídas, de e para o mar: uns barcos de pesca aqui, alguns barcos de recreio ali e, lá longe, no cais mais afastado, dois imensos navios de passageiros que acendem as suas luzes cumprimentando a noite que se aproxima, célere…

 

Peço um último café ao empregado que, atarefado, levanta a loiça das mesas desocupadas na urgência de fechar mais cedo, ansiando pela companhia que o espera... Vou pensando para mim que me irei embora daqui a pouco, quando o último navio partir, pois não adianta a espera: faz frio e tu não virás... Sinto que jamais virás, mas insisto em vir até aqui ao final de todas as tardes de quarta-feira, num ritual que acabou por me definir, bebendo um ou dois cafés, espraiando o olhar no horizonte, ver partir os navios dos outros e outros em navios que partem, apenas para dizer - se porventura um dia tivesses aparecido - que te amo como se ama apenas uma vez na vida: para sempre...

 

Que navios sulcam os mares dentro de nós? Que portos procuram? Que passageiros transportam? Quantos chegam ao seu destino? Quantos se afundam com pedaços nossos arrancados bem lá do fundo, com sofrimento?... São as memórias que tornam inolvidáveis estes navios que definem as nossas rotas, que nos definem a nós, navios que aos poucos vão partindo: os eternos pai e mãe, sempre seguros e com resposta para todos os desafios; os velozes e irrequietos filhos; o navio do primeiro amor, onde ainda se notam aqui e ali as cores da descoberta e da juventude despreocupada… E depois, incontornável e demorado, o amor por aquela que sabemos ser a última mulher da nossa vida, o último navio a partir, com aquele ranger familiar das madeiras cansadas que um dia foram eternas, os cordames quebradiços pela ação do sal de lágrimas amargas, o barulho de portas que batem empurradas pelo sopro implacável do tempo que se apropria, paciente e inexorável, dos espaços abandonados no convés onde ainda esvoaçam memórias, fragmentos de risos e fotografias amarelecidas que testemunharam a nossa paixão…

 

Todos nós erramos, todos nós cometemos erros... Depois há erros que, de tão graves e profundos, parecem conseguir ocultar todas as outras coisas fantásticas e acertadas que construímos juntos... Perdoar não é esquecer nem ignorar.. perdoar é ter a capacidade de ouvir o que vai dentro de nós para além dessa mágoa profunda, é sentir também a dor do outro e, nessa consciência partilhada, assumir que nenhum de nós é perfeito... é ter a certeza que, apesar dessa imperfeição, há uma pessoa ao nosso lado que está a improvisar a vida connosco o melhor que sabe, o melhor que pode, uma pessoa pela qual valeu a pena ter sentido essa dor, uma pessoa cujo amor por nós nunca esteve em causa por um minuto que fosse, a pessoa em cujo abraço encaixamos na perfeição e é capaz de nos fazer brilhar tão intensamente quanto a lua cheia, a mais linda das bolas de cristal, no céu mais estrelado de sempre...

 

Ajustei o cachecol que trazia ao pescoço e levantei-me para ir embora, não sem olhar uma última vez para o horizonte... Sorri, lembrando-me do sol que um dia me aconchegou no verão das tuas mãos… No mar que trago dentro, és o último navio a partir. Deixas para trás um peito aberto e eu deixo partir o mundo inteiro... Suspirei e, olhando para cima enquanto a chuva anunciada chegava, abracei a derradeira lição que a vida nos concede: a aceitação do que não podemos mudar… "Feliz ano novo, meu amor!" lancei ao vento, inundando-me com a honra que sempre consagrei ao privilégio de ter caminhado ao teu lado, com a certeza de que esse meu beijo se demoraria, eterno e apaixonado, nos teus lábios macios...

 

“It's a strange kind of beauty,

It's cold and austere,

And whatever it was that ye've done to be here,

It's the sum of yr hopes yr despairs and yr fears,

When the last ship sails.”

 

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A mesa está posta, pai... Feliz Natal...

por Entre Voos, em 24.12.15

 

A mesa está posta, pai, o teu lugar continua teu, mas hoje sou eu quem vai ter a honra de se sentar lá. Eu sei, não estás cá, é apenas uma cadeira, mas sentar-me ali, nesta tua casa, na tua cadeira, é tentar que o tempo hoje ande mais devagar, é tentar que em cada frase minha surja a inspiração das tuas palavras, é reviver as memórias dos natais anteriores e ouvir o eco do teu riso, é tentar que as iguarias na mesa e o fogo na lareira e a fome no coração tenham sentido, apesar de tudo, apesar das ausências...

 

A mesa está posta, pai, a maior parte das pessoas que amas conseguiram vir, as conversas estão animadas entre o tinir dos copos com o teu vinho tinto e o barulho dos talheres que esfiapam o bacalhau cozido com couves. Tenho a certeza que era isto que querias :o). Sei que (acredito!) daqui a pouco haverá um momento, um breve instante em que os nossos silêncios serão coincidentes porque, nesse intervalo, nesse vislumbre de paz e tranquilidade, todos estaremos a pensar em ti... Depois, nessa fátua eternidade, surpreendidos, começaremos a rir ao mesmo tempo e saberemos que passaste por ali para nos ver, para estares uns preciosos instantes connosco, para nos abraçares novamente, para nos brindares com a tua doçura e nos acarinhares com as memórias felizes, indeléveis, das estórias de uma vida cheia…

 

A mesa está posta, pai. Saudades tuas, por aqui... Feliz Natal…

  

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Conquistando a eternidade na luz dos teus olhos, oferecendo-te a minha vida num sussurro quente...

por Entre Voos, em 21.12.15

 

 

Não consegui voo mais cedo, pelo que cheguei ao hotel passavam já das 22 horas locais. Cansado mas ainda sem sono, decidi subir até ao bar no último piso deste elegante hotel, onde nunca tinha pernoitado. Como habitualmente, o ambiente das conversas amenas e da música calma criam o ambiente que me arrasta para os acontecimentos dos últimos dias, quando fechaste a porta de casa com estrondo, ameaças e palavras duras... tão duras quanto a dor que sentias... Rejeitaste o meu olhar de incompreensão, afastaste as minha mãos estendidas que esperavam em vão o teu abraço de conciliação, obrigaste-me a parar nos lábios as palavras ébrias de amor que afloraram do meu coração e erigiste um muro de silêncio e esquecimento entre nós… Quantas palavras proferi em vão do lado de fora desse muro alto, palavras que precisei de te dizer na conversa que nunca chegámos a ter…

 

Se há alguém no mundo que me sabe de cor, de facto, és tu… Conheces o calor da minha pele e todas as suas imperfeições, sabes qual a verdade das minhas alegrias e a razão dos tormentos do meu coração, conheces as tonalidades da minha luz e todas as sombras e vincos da minha alma… Tu conheces o meu verdadeiro nome desde um tempo tão antigo que nem sequer há lugar para ele na memória das palavras, senão na luzência das nossas almas ou no toque pacificador que os nossos dedos geram quando percorrem o rosto um do outro, demorados e paradisíacos, faiscando de reconhecimento nos sentidos há muito adormecidos… E na tentativa de clarificar quem e o que somos, não há adjetivos nem substantivos que o consigam expor. Procuro na dissimulada comodidade das palavras a definição daquilo que só no mais fundo do nosso coração se encontra: a essência e a razão do brilho nos meus olhos quando penso em ti… Só o coração pode definir-nos e fá-lo de forma exemplar quando bate dentro de um peito que não é o nosso...

 

Sim, bem sei que já não habito em ti e que às nossas almas não será dada oportunidade de edificar novas memórias: não descobriremos novas rotas para navegar no infinito daquilo que somos, não criaremos novos dicionários de amor e mesmo as palavras que ainda perduram apenas deixam a sensação de nos termos olvidado de qualquer coisa marcante que, apesar de tudo, não conseguimos identificar...

 

Assim, contigo a ocupar o meu pensamento, pedi um whisky sem gelo, desejando estar aí abrigado na cama de nuvens e algodão doce que é o teu coração, desejando estar na tua sala, imaginando a lareira acesa onde a madeira crepita e enche o ar com cheiro de alegria e família, nessa confusão de barulhos, prendas, papel de várias cores e brincadeiras de miúdos, desejando estar nessa sala, agora, neste preciso instante, para me aproximar de ti de forma tranquila mas decidida, forçando o tempo e o barulho a pararem, só tu e eu existimos, eu sem tirar os meus olhos dos teus, tu alargando o bonito sorriso que emoldura o teu rosto enquanto me observas a aproximar, até chegar bem perto e te abraçar pela cintura fina... Depois balançar-nos-íamos numa dança lenta, quase parada, ao som de uma música que só nós dois ouviríamos, abraçando-te com a certeza de quem se apaixona todos os dias pela primeira vez pela mesma mulher, por ti, acariciando o teu longo cabelo, embriagando-me no perfume que dele emana, roubando aqui e ali mel aos teus lábios, conquistando a eternidade na luz dos teus olhos, oferecendo-te a minha vida num sussurro quente, junto ao teu pescoço perfeito: "Adoro-te tanto... Feliz Natal."

 

 

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Na quietude notívaga das horas de insónia onde regularmente te encontro...

por Entre Voos, em 17.12.15

 

Chove. A noite quedou-se de mansinho ao meu lado. Não dei pela sua chegada, mas trouxe consigo tempo e memórias para partilhar. Sirvo-me de um James Martin’s sem gelo, como sempre, e coloco Bach a tocar para mim, a tocar para nós. Deixo que os acordes, tão familiares como o teu perfume, pintem progressivamente a sala de estar e me conduzam para o sofá onde a tua ausência nos acompanha. Penso-te: tanta coisa por dizer...

 

Falar-te-ia do matinal acordar etéreo dos grãos de pó, hipnóticos, numa dança harmoniosa, contínua, sustentada pela desafinação aparente dos seus movimentos que, no meu quarto ainda obscurecido, procuram os raios de luz que vencem as frestas da persiana semiaberta e se espraiam nos lençóis desalinhados da cama onde a forma do teu corpo, já acordado, reclama o espaço das noites loucas e das manhãs aninhadas em abraços cúmplices…

 

Ou do beijo apaixonado de "até logo" soprado pelos teus olhos, num gesto tão genuinamente belo e naturalmente distraído como a espessura incomensurável do nada que delimita uma bola de sabão multicolor que rodopia, única, robusta, na momentânea existência de quatro eternos segundos para, dali a pouco, nos salpicar de alegria agridoce da sua história, da sua partida…

 

Ou da felicidade desenfreada, simples e verdadeira, que sentimos quando passeamos os dois de mão dada, que transborda do riso das crianças que correm atrás dos pombos na praça da vila, só porque sim, só porque apetece naquele instante abandonarmo-nos à existência sem planos, a ser felizes ali, ao lado daqueles nossos amigos acabados de conhecer e que serão os nossos melhores amigos para toda a vida que existe entre o ali e o final daquela correria, que abraçaremos ao cortar a imaginária linha da meta ao pé do banco de madeira pintado a verde, no limite da praça, vencedores, ofegantes, abraçados, ruidosos, como se tivéssemos acabado de viver a aventura mais significativa de toda a nossa existência, naquela praça, naquele instante, único, eterno, apaixonados…

 

Ou do arrepio que os meus lábios quentes provocam na tua pele macia, como a carícia de uma brisa fresca no final de uma tarde de verão, à beira mar, na praia onde te levei para me declarar eternamente teu, para te entregar o que de mais sagrado e mais profano tenho, naquela praia onde quis parar o tempo para nos demorarmos a olhar aquela cascata perfeita, para ficarmos ali, perpetuamente ali, de vidas dadas, naquela praia onde a leveza das tardes é prometida na espuma do mar que adorna o teu corpo nu, onde a certeza das noites loucas transparecem no olhar desafiador com que me despes, e onde a firmeza do amor só encontra paralelo na robustez das falésias que, sem idade, nos rodeiam e protegem…

 

Ou da paz tranquilizadora que me invade no voo do flamingo que aparece, em câmara lenta, no sorriso sincero que se desenha progressivamente no teu rosto quando me apanhas a olhar para ti, eu inebriado pela doçura dos gestos quotidianos enquanto preparamos o jantar e conversamos sobre coisas simples, eu cativado pela fluidez graciosa da tua serenidade, da tua esperança, da tua força, eu conquistado ao lugar certo de todas as coisas na tua vida...

 

Ou do som cristalino e sempre renovado das gotas de chuva lá fora, ao princípio da noite, com o lume a crepitar na lareira da sala e dois copos de vinho tinto esquecidos na pequena mesa de apoio enquanto nos amamos lentamente, olhos nos olhos, para lá da pele, para lá do corpo, para lá do tempo, no lugar mágico onde as almas se encontram e partilham as memórias intemporais de um amor inevitável…

 

Ou do significado imenso contido na beleza geométrica de uma teia de aranha, tão frágil, tão resistente, como a vida, como os vínculos que nos ligam para sempre às pessoas que nos marcam, tão frágeis e, no entanto, tão resistentes, que perduram nas saudades, nos lugares, nos momentos, nas músicas, na quietude notívaga das horas de insónia onde regularmente te encontro e conversamos, choramos e rimos…

 

Falar-te-ia dessas horas suspensas onde nos encontramos por dentro, do amor que te tenho para sempre, da falta que me fazes na substância dos dias e da forma sempre inesperada como te despedes devagar, dissipando-te com a primeira claridade da manhã, deixando-me apenas com vestígios do teu perfume e sinais de um zimbro lacrimoso que me cobre o rosto e emoldura o copo já vazio que teimo em acariciar, distraído, na minha mão… Nenhum sopro de clemência existe no silêncio de quem se ama...

 

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"As palavras que nunca te direi" - Cartas...

por Entre Voos, em 17.12.15

 

 

(do filme: "As palavras que nunca te direi" - Carta de Catherine)

 

"A todos os navios no mar, a todos os portos de abastecimento. Para a minha família, e para todos os amigos e desconhecidos. Isto é uma mensagem e uma oração.

A mensagem é que as minhas viagens me ensinaram uma grande verdade. Já tinha aquilo que todos procuram e que poucos encontram: aquela pessoa no mundo que nasci para amar para sempre. Uma pessoa como eu da zona de Otter Blank, do misterioso Atlântico Azul. Uma pessoa rica em tesouros singelos, que se fez aquilo que é. Um porto em que estou sempre em casa. Nenhum vento ou problema, nem mesmo uma pequena morte, poderá fazer ruir esta fortaleza.

A oração é a pedir que toda a gente encontre um amor assim e através dele seja curado. Se a minha oração for ouvida toda a culpa será apagada e todos os remorsos e toda a raiva será extinta.

Por favor Deus. Ámen."

 

(do filme: "As palavras que nunca te direi" - Carta de Catherine)

 

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(do filme: "As palavras que nunca te direi" - Primeira carta de Garrett)

 

 

 "(...) Escrevo para te dizer que estou a trabalhar para alcançar essa paz. E para te dizer que lamento tantas coisas. Lamento não ter tratado melhor de ti para que não passasses minuto algum com frio, ou com medo, ou doente. Lamento não me ter esforçado mais por te dizer aquilo que sentia. Lamento nunca ter arranjado a guarda da porta. Arranjei-a agora. Lamento as discussões que tive contigo. Lamento não te ter pedido mais vezes desculpa por ser demasiado orgulhoso. Lamento não ter elogiado tudo aquilo que vestias e todos os teus penteados. Lamento não te ter agarrado com tanta força, que nem Deus te pudesse arrancar de mim."

 

(do filme: "As palavras que nunca te direi" - Primeira carta de Garrett)

 

 

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