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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

02
Abr16

Cúmplices, agarramos o infinito no tempo de uma troca de olhares...

Entre Voos

    

E aqui estamos... O reboliço da refeição e as tarefas dos trabalhos de casa dos miúdos terminaram… A cozinha está arrumada e tudo parece estar no sítio certo… O murmúrio da noite, tranquilo, invade o nosso espaço e escorre pelas janelas ao som de um ou outro carro distante… Imagino-te a entrar no quarto, devagar, com o teu sorriso habitual, na antecipação da trégua merecida no final de mais um dia cansativo, frenético, completo, perfeito…

 

Sentar-te-ias no cadeirão do quarto, aquele cadeirão azul onde deixarias a roupa preparada para amanhã. Tiras o relógio e depois os brincos, com o vagar e a precisão dos gestos familiares, primeiro o da orelha esquerda, depois o da direita… Olhas-me e ris-te, enquanto colocas tudo na prateleira ao lado da cama, num amontoado irrepreensível… Tiras os teus sapatos de salto alto e oiço-te um esboço de satisfação enquanto massajas um dos teus pés… Despes-te… “Porque me olhas assim, oh tonto?” – perguntas, enquanto o teu perfume inspira o meu desejo… Afastas o cabelo dos olhos, deixando que os seus reflexos de sol sobressaiam no pijama que vestiste com cuidado, mesmo sabendo que daqui a pouco te irei despir…

 

Quedar-me-ia silencioso, afastando os lençóis para nos deitarmos… Não quero falar, pois sei que não há palavras para expressar o que vejo, para descrever esta paz que mansamente se espalha no meu peito... Não me ocorrem frases para mais um texto, quando o tema sobre o qual poderia escrever está à minha frente e me observa com a mais bela história de amor a brilhar no olhar… Deitamo-nos e, de forma instintiva, aproximas-te de mim na reconquista diária do teu lugar certo no aconchego do meu abraço…

 

Pensativa, acariciar-me-ias o peito por dentro do meu pijama cinzento… A forma como te aninhas em mim está repleta de sabedoria ancestral, quietude, silêncio, paz e lugares seguros. Olhas-me novamente e ris-te baixinho… A forma como coças o nariz com um dedo e depois inspiras o calor da nossa pele, escancara as portas do meu coração e só me apetece ficar ali a olhar-te, deliciado, a disfrutar do milagre quotidiano de te ter ali, sentindo a magia de um tempo que nos juntou… não consigo evitar que a emoção me atraiçoe quando acomodo o teu rosto no cálice das minhas mãos, para beber dos teus lábios a água que me preenche de vida… Digo que te amo, tu sorris e dizes “Eu também…”

 

Falaríamos um com o outro como se não nos víssemos há séculos, desde a hora do jantar, rindo em sussurros e recordando as peripécias dos apaixonados, trocando as histórias do nosso dia por beijos e carícias meigas… Cúmplices, agarramos o infinito no tempo de uma troca de olhares, imortalizando esses instantes preciosos antes de se tornarem doces memórias, preenchendo a vida que vai dançando, inexorável, em direção à linha do horizonte…

 

Na penumbra da noite tudo se abrevia em tons de cinzento, mas sorrimos porque sabemos que dentro de nós perduram infinitas cores que pintam a distância dos nossos dias... “Para a minha alma aprendiz, és todos os sonhos e desafios que um dia desejei, na mulher fantástica a que pertenço...” – diria enquanto, com o cuidado e a candura de uma primeira vez, libertava os botões do teu pijama e me entregava a ti, novamente…

 

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29
Fev16

Linda...

Entre Voos

 

Hoje imaginei-te a chegar à pequena mesa do café onde me sentei para tomar o pequeno almoço… Chegarias linda, sorridente e elegante, como sempre. Trarias a luz do sol no olhar e a primavera no calor nos teus lábios de mel. Falarias de tudo e de nada e eu, feliz, escutaria o trinado melodioso das aves no céu, adivinharia o fresco dos regatos nas montanhas, experimentaria na pele o acordar sensual que a tua voz sempre me provocou e, depois, sentar-me-ia numa nuvem contigo…

 

Pedirias um chá de rooibos e eu um chá preto… Afastarias do rosto, distraída, uma madeixa do teu cabelo loiro e eu renasceria ali, no quadro que a manhã pintaria para nós: a luz matinal a entrar pela janela do café, o cheiro a pão acabado de cozer, as vozes sumidas das conversas nas outras mesas, eu e tu sorrindo tranquilos numa manhã insuspeita, um encontro fortuito, um mundo novo, de novo…

 

Ficaria ali eternamente, deliciado, trocando novidades contigo… O tempo ficaria suspenso nos gestos espontâneos que as tuas mãos delicadas fariam, eu alimentado pelo brilho dos teus olhos, tu beleza pura, eu a procurar-te nos silêncios das frases que não quererias dizer, tu a baixares os olhos para calares com um sorriso tímido as palavras ternas que eu te diria…

 

Chegarias linda e ficarias por ali como se todas as manhãs tomássemos o pequeno almoço naquela mesa, naquele café… Sairíamos juntos, como sempre fomos, caminhando serenos, lado a lado, tu a fazeres-me feliz, eu a fazer-te sorrir, nós a tornarmos o mundo mais cintilante e depois, por determinação do universo antigo, o teu perfume não mais se ausentaria da minha pele…

 

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22
Nov15

Finalmente, domingo de manhã...

Entre Voos

 

Finalmente, domingo de manhã…. Volto a deitar-me ao teu lado e a tua respiração pausada tranquiliza-me e ilumina-me o rosto para mais uma manhã de domingo, como se fosse a primeira vez que acordássemos juntos… As memórias da noite de sábado estão visíveis no chão do quarto, espalhadas como só amantes o sabem fazer… O lençol branco que comprámos juntos, com a fina risca azul, cobre por fim a tua pele nua, branca como as nuvens, macia como seda, saciada de vida como um prado acabado de regar…

 

Finalmente um domingo de manhã, contigo ao meu lado…Como foi que te disse ontem? “Quero acordar tarde, com o cheiro do teu corpo a impregnar a minha pele, com os teus dedos interlaçados nos meus e um sorriso enorme no rosto! Quero a eternidade de um dia inteiro à nossa frente, tu ao meu lado, pequeno-almoço tardio, quero a promessa de uma tarde que te perpetuará no meu abraço, uma tarde de sol no parque ribeirinho, a tomar café e a olhar para ti, deliciado”.. e é isso…

 

Finalmente domingo, uma manhã com a tua paz aninhada no meu abraço, com a tua pele a vestir-me, com a tua alma protegida pela minha, com o meu olhar a descansar no teu rosto, com o meu coração a bater dentro do teu peito, com a eternidade aqui mesmo ao pé de nós… Beijo-te a face morna, e adoro a forma como abres os olhos, devagar, e imediatamente escondes o rosto com as mãos, a rir baixinho, e te enroscas em mim como quem descobre que sou uma parte sua, como se a coisa mais surpreendente do mundo fosse descobrires no meu olhar, todos os dias de manhã, que te adoro e te pertenço...

 

Finalmente uma manhã de domingo para nós!... Com um sorriso no rosto, beijo-te ao de leve nos olhos, depois nos lábios, depois segredo-te ao ouvido, num murmúrio, todos as exclamações de prazer que construímos na noite de ontem, enquanto tu finges que me tentas afastar para, ao invés, te aninhares completamente nesta vida que vamos construindo, inundada com o teu distinto perfume, com a bondade no teu olhar, com a certeza das nossas mãos entrelaçadas, com a inevitabilidade de um amor antigo… Levanto-me para ir buscar o pequeno‑almoço que momentos antes tinha preparado para nós, como gostas: torradas com pouca manteiga, omelete com orégãos, chá verde com gengibre, dois kiwis descascados e fatiados, um post-it amarelo com um coração desenhado dentro de uma janela, enquanto um incenso queima lentamente no corredor…

 

Finalmente, domingo de manhã, e sorrio…. O som da tua voz ao meu lado, enquanto conversamos sobre tudo e sobre nada, serena-me, completa a minha alma, preenche o quarto, preenche a vida…. E aqui estamos, eternos, completos, como foi escrito nas estrelas, com o tempo parado lá fora e com o sol a brilhar aqui dentro, no paraíso…

 

 

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08
Nov15

Meia hora para mudar as nossas vidas...

Entre Voos

 

Tens meia hora para mudar as nossas vidas.... Tens meia hora para autorizar a eternidade a descansar, plácida e tranquila ao sol desta varanda, pacificada pelos nossos olhares antigos, pelos nossos olhares interiores. Tens meia hora, amor, para que possamos finalmente terminar esta viagem na procura por aquele lugar que sabemos existir e ao qual pertencemos...

 

Temos meia hora para reconhecer que esse lugar é esta construção diária, sabes, dedicada, é a mesa posta para o almoço e a comida no forno; é esta música tranquila a acariciar-nos o coração; é a fragância inconfundível que a tua pele exala depois do banho quente onde partilhámos o champô com que te lavei, paciente, o cabelo; são os nossos pijamas atirados descuidados para cima dos lençóis onde o nosso amor se demorou pela manhã; é o café com canela, mexido sem açúcar, a acompanhar as nossas conversas tontas; são os ecos do teu riso provocado pelo toque da minha mão a percorrer a pele macia das tuas costas; é a leitura do jornal interrompida por um beijo urgente, com o corpo todo; é um incenso a queimar na sala, lentamente, testemunhando e imortalizando a nossa completude; é a troca de olhares cúmplices ao lembrar da noite de ontem, do filme projetado na parede da sala, sabendo que a estória aconteceu nas nossas mãos dadas, dentro do nosso abraço, pele com pele, vida com vida, eternidade com eternidade...

 

Tens meia hora, amor... Quando vieres da tua viagem por esse mundo para onde sentiste que devias ir, tens meia hora para mudar as nossas vidas... O café está pronto e eu estou na varanda. Vens? 

 

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20
Out15

Conseguirão as palavras falar de amor com a mesma intensidade que um sorriso num sussurro?

Entre Voos

 

 

Olho o mar tranquilo à minha frente mas apenas consigo sentir as ondas vigorosas que, sem descanso, se abatem na praia deserta que trago dentro do peito. Desvio insistentemente o olhar do horizonte sereno, neste plácido final de tarde emoldurado por um sol de outono, para o pousar na folha onde escrevo sobre o mar revolto que trago dentro…

 

Escrever é uma maneira de materializar os nossos fantasmas para os aprisionarmos na forma rigorosa e tangível das palavras selecionadas com cuidado… É como se, depois de estarem alinhados num texto, deixassem de estar dentro de nós e assim pudéssemos, com o simples amarrotar da folha, deixar que o vento se encarregasse de nos limpar o pensamento, a pele e a alma. É como se pudéssemos, finalmente, descansar, nem que apenas até ao final do dia, onde os silêncios da noite voltam ruidosos como velhos amigos cheios de notícias e palmadas nas costas, dispostos a mais uma noitada... É por isso que cada palavra que escrevemos tem mundos infinitos dentro de si, corpos reais, lugares sentidos, emoções vívidas, incessantes decisões sobre guerra e paz, vitórias e derrotas, braços caídos e gritos de alegria… Escrever é arquivar a vida, é pacificar o passado para arranjar espaço ao futuro…

 

E depois ela chegou, atraente como sempre foi, segura como sabe que é, passeando devagar junto ao pequeno muro caiado que separa a esplanada do café do areal, sem conseguir convencer ninguém que a observasse de que a única coisa que lhe interessava hoje fosse o mar lá ao longe e não as histórias inacabadas que povoavam o seu pensamento. Não me viu, claro, de tão ausente que estava, mas pouco depois ao percorrer o espaço com o seu olhar pensativo fez uma expressão de surpresa quando os nossos olhares se cruzaram, e sorriu envergonhada, como se tivesse sido possível eu ter escutado o eco das suas reflexões mais íntimas...

 

Caminhou hesitante para se sentar numa mesa perto da minha, como se desculpando das ondulações escusadas provocadas pelo seu caminhar na tranquilidade aparente do espaço que eu ocupava… “Bom dia…” sussurrou, oferecendo-me um sorriso genuíno, olhando depois para os farrapos dos meus pensamentos materializados nas frases que tinha deixado dispersas na superfície do papel. E foi a minha vez de me envergonhar, devolvendo-lhe o cumprimento num sorriso franco e dobrando a folha em cima da mesa para afastar as memórias de ti...

 

Quando o empregado me veio trazer um novo café, levou com ele as linhas amarrotadas do passado e, aproveitando o momento em que olhaste para nós, pedi-te com simpatia um lenço, apontando para os meus óculos em cima da mesa, quando o que realmente queria era abraçar-te, voltar a agarrar as tuas mãos macias (como o fiz há séculos atrás, naquela sala, com uma toalha mágica), e começar a escrever uma nova história: conseguirão as palavras falar de amor com a mesma intensidade que um sorriso num sussurro?...

 

"Então? A perder-se nas palavras ou a tentar encontrar-se nelas?"- perguntaste calmamente, com o teu habitual sorriso doce, com o teu inconfundível perfume a embriagar-me, enquanto eu mergulhava nos teus olhos e pedia que nos resgatasses... 

 

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