Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

02
Out15

Vidas desencontradas

Entre Voos

 

É quase uma da manhã... Passam 47 minutos da meia-noite para ser mais preciso. A viagem foi longa e jantei no avião. Sentado agora no átrio do hotel, num sofá preto confortável, chega-me do bar a música baixa, calma, do Tom Waits, quase despercebida no meio da animação dos grupos de amigos à volta das mesas baixas, com tampos de madeira, risos curtos que saem naturais entre amigos, palmadas nas costas fechando discursos e conclusões finais justificadas com cerveja, as gargalhadas familiares, prolongadas e bem altas que nos fazem virar a cabeça na direção do som e até sorrir, enquanto os copos tilintam e aproveitam as últimas saudações do verão que ainda se demora por este outono dentro.

 

Lá ao fundo, naquele canto do bar, ela está sozinha enquadrada pelo vestido preto justo, decote agradavelmente insinuante sem ser vulgar, sorrindo por nada, olhando em volta, pedindo emprestada a alegria que não sente, acariciando em círculos, com o dedo anelar da mão direita, a borda de um copo ainda meio de vinho tinto, unhas pintadas de vermelho, mãos pequenas e certamente macias, com dedos esguios. O batom, com cor a condizer, delineava uns lábios doces e solitários, talvez à procura de outros lábios, talvez a apaziguar o cansaço da sua viagem, talvez a pensar nos lábios que ontem beijou pela última vez, antes de embarcar. Com o olhar percorria a sala, atenta aos gestos deles, atenta à forma como as mulheres se inclinavam para os companheiros, sedutoras, talvez um pouco ébrias ou apenas a aproveitar de forma intensa momentos que sabem irrepetíveis…

 

E foi assim que, no movimento distraído da sua observação, por entre as madeixas do longo cabelo loiro, uns olhos azuis encontraram os meus e ali nos surpreendemos mutuamente, suspensos no olhar um do outro, enquanto a música continuava baixinho mas agora sobrepondo-se aos risos e ao tilintar de copos, sobrepondo-se aos segundos que se iam demorando nos ponteiros do relógio grande por cima do balcão, enquanto o nosso olhar esgrimia perguntas sem resposta, enquanto nos apaixonávamos um pelo que o outro deveria ser, enquanto os nossos rostos, simultaneamente, acomodavam sorrisos de uma cumplicidade infantil e os nossos ombros, síncronos, encolhiam o espanto deste nosso improvável encontro.

 

Sacudimos a cabeça, divertidos, cúmplices nos nossos silêncios, partilhando a tranquilidade de quem observa em segredo, beijando-nos nos copos solitários que cada um segurava, entrelaçando as mãos com que consultámos o telemóvel que sabíamos sem mensagens nem telefonemas perdidos, cada um no seu canto do mundo, partilhando naquela música e naquele espaço uma história de amor por acontecer, uma história de amor que tinha acabado mesmo antes de termos sequer cruzado o nosso olhar…

 

Ela sorriu quando passou por mim, ao sair, entregando-me um adeus acenado. Agora que tínhamos deixado de ser dois estranhos, unidos que estávamos pela música do Tom Waits e pela história de amor que tínhamos vivido, não precisámos de mais nada para dizer adeus: não cabem palavras num abraço de despedida...

 

Licença Creative Commons
27
Set15

Soube que já não existo em ti...

Entre Voos

 

Estou há quase duas horas a conduzir, a dirigir-me para mais uma reunião, longe de casa, longe de tudo, longe... Não sendo a sala de espera de um aeroporto, na realidade o carro não deixa de ser mais uma sala de espera onde os minutos e as horas são consumidos com a habitual lentidão: não deixo de sentir que me estou a dirigir a lado nenhum. Estou há duas horas a conduzir e a única certeza que tenho é que me dirijo para lado nenhum... Para onde ir, depois de teres apagado todos os caminhos que me levavam a ti, depois de teres deixado bem claro que me querias fora da tua vida? Que dia é hoje? Em que mês estamos? Olho à minha volta e os momentos que vivemos surgem-me em cada canto, recortados nas fotos espalhadas pelo chão da nossa pele. Aqui o tempo arrasta-se numa quase imobilidade, subjugado às memórias doces polvilhadas com o som da tua ausência. Que dia é hoje? Que mês é este?...

 

E, no entanto, ainda aqui estou, teu, como no primeiro dia em que nos beijámos, com um coração que ainda bate descompassado quando uma memória tua me envolve como uma brisa suave, cálida, límpida, breve... Eu deveria ter percebido... Que lugar tem o perdão nos erros que decidimos juntos?

 

Foi naquele domingo de setembro que eu soube: disseram-me que tinhas alguém... Lentamente deixei-me afundar no torpor do modo de sobrevivência que tomou conta de mim. Lentamente deixei-me afundar e reduzir até ao tamanho de um ponto insignificante no meio dos lençóis que foram nossos. Vontade de fugir, mas fugir para onde, quando tudo o que temos e somos está dentro de nós?

 

Soube que o rosto que os teus olhos percorrem já não é o meu. Soube que as mãos que apertam as tuas têm outra textura. Soube que as carícias que agora te arrepiam não pertencem aos meus dedos outrora suaves. Soube que os teus sorrisos já não se destinam aos meus olhos. Soube que os teus longos cabelos macios e da cor do ouro se espalham agora noutro peito. Soube que os poemas que lês são delineados com outra caligrafia, outras memórias, outro futuro. Soube que nos sussurros que te fazem brilhar já não se ouve a minha voz. Soube que os lábios que exploram o teu corpo não têm o gosto dos meus e até os braços que te confortam têm outro perfume. Foi naquele domingo de setembro que soube que o meu coração não tem lugar dentro do teu, que o motivo da tua paz já não mora nos meus olhos...

 

Foi por outros que soube que este outono será um inverno demorado. Soube que nada, nunca mais, voltará a ser como era, nem como poderia ter sido... Soube que já não existo em ti e que agora voo sozinho...

 

 

Licença Creative Commons
16
Set15

Quarta-feira era o nosso dia...

Entre Voos

 

 

Quarta-feira era o nosso dia, lembras-te? De véspera já o dia me corria melhor com a antecipação do nosso encontro... Quando chegavas, antes de jantar, eu já tinha preparado as coisas: no ar sentia-se o aroma do Nagchampa Argabatti que coloquei a queimar pouco antes de entrares; na sala as almofadas estavam colocadas no sítio certo, por forma a tornar a nossa conversa após o jantar mais confortável; a comida já estava no forno, o salmão com limão e sal, como gostavas, a batata assada com orégãos e a música do John Mayer tocava tranquila, íntima, quente…

 

Chegavas, sorrias, colocavas as tuas coisas no aparador do corredor, logo a seguir à porta da entrada, após o que nos abraçávamos e beijávamos como se tivesse passado um mês, e não apenas dois dias, desde a última vez que estivéramos juntos... Depois pegava-te pela mão, íamos para a cozinha onde preparavas a tua habitual salada e colocávamos a conversa em dia: ao “Como te correu o dia, querida?” respondias “Oh, correu bem, cansativo, mas correu bem…” e olhavas para mim com aquele brilho no olhar que transmitia toda a alegria que sentias por ser professora, toda a responsabilidade e orgulho que colocavas no ato de ensinar, apesar dos mais de 90 minutos que durava a tua viagem para a escola, em cada sentido. “E o teu?” - perguntavas-me - “Fantástico, amor, corre sempre bem!” e ali ficávamos a conversar sobre o nosso dia, sobre o tempo, sobre os nossos meninos, ali pedias-me ajuda para resolver a tua dificuldade com aqueles problemas nas fórmulas do ficheiro Excel e decidíamos o que íamos fazer no próximo fim-de-semana… e eu amava-te ali, em pé, a olhar para ti, embevecido, amava-te nos teus gestos calmos enquanto cortavas a salada, amava-te nos sorrisos descontraídos que me oferecias, amava-te na tua voz que me tranquilizava a alma, amava-te na forma como os teus lábios compunham as palavras que proferias, amava-te na forma como te rias enquanto dizias que o teu carro só estava a gastar 4.5 aos 100, e então eu amava a cumplicidade que nos unia, amava-nos por saber que tudo estava bem, que nos tínhamos um ao outro e que nada mais importava, amava-nos por saber que tudo o que acontecia naquela cozinha tinha sido forjado através dos tempos e que era inevitável o nosso encontro, amava-nos porque sempre foi inevitável o nosso encontro: todo o universo conspirou para que nos encontrássemos em cada quarta-feira na minha cozinha e para que nos amássemos nos pequenos gestos e nas coisas simples da vida como tu a cortar a salada e eu a olhar o peixe no forno… Lembras-te?

 

Depois sentávamo-nos à mesa de madeira de bétula que tinha encostada à parede da cozinha, os pratos brancos, quadrados, que antes de chegares já tinha deixado sobre a toalha preta, dispostos simetricamente para nos sentarmos um de frente para o outro, e eu servia-nos uma concha do creme de peixe (delicioso) que tinha preparado e que sabia que só comias para eu não ficar triste (mas eu não ficaria triste, de qualquer maneira), mais tarde dirias que o peixe estava delicioso enquanto a minha mão deslizava em cima da mesa para ir ao encontro da tua pois os segundos intermináveis que tinham passado desde o meu último toque na tua pele tornavam insuportável a distância entre nós…

 

Antes da sobremesa, depois de levantar os pratos, aproximava-me de ti, da tua cadeira, virava-te para mim, sentava-me no teu colo e, enquanto segurava delicadamente o teu rosto bonito entre as minhas duas mãos, olhava-te nos olhos, dizia que te amava e depois, antes que pudesses sequer pensar em dizer alguma coisa, entregava-me aos teus lábios quentes que esperavam, húmidos, por mim...

 

O ritual do café Nespresso tomado na sala, tu sentada no sofá branco, eu sentado no chão em cima de uma almofada, tu a insistires para que eu me sentasse ao teu lado e eu sem te conseguir dizer que dali te podia abarcar toda, que dali conseguia abraçar toda a nossa vida apenas olhando para ti, que dali eu me maravilhava ao ter a certeza que eras tu quem estava sentada no meu sofá branco, eu deslumbrado por te ter ali, eu a olhar para nós, a agradecer em silêncio tudo o que tínhamos conseguido construir juntos, eu ali sentado naquela almofada no chão a amar-nos devagar, a saborear-te em cada gesto que fazias para afastar o cabelo para trás da orelha ou a ajustar os óculos (sabes que te adoro ver de óculos?) com a mão direita, nós a amarmo-nos enquanto tomavas o teu café e o John Mayer dedilhava o “Covered In Rain”, eu a apaixonar-me cada vez mais e mais por ti, eu naquela almofada no chão da sala e tu meio deitada no meu sofá branco somos o casal mais feliz do mundo…

 

E então peguei-te delicadamente na mão, tu sem ofereceres resistência (sabias que te ia levar para o nosso quarto, não sabias amor?), enquanto lá fora a chuva que começou a cair traça riscos de água nas janelas largas, lavando o cansaço dos nossos corpos, lavando as preocupações e celebrando o nosso amor: hoje é quarta-feira à noite, o nosso dia…

 

Lembras-te?

Licença Creative Commons
12
Set15

Imobilidade...

Entre Voos

 

E se nunca mais nos conseguirmos encontrar por eu não estar, naquele exato momento, no sítio onde a tua memória de nós te levou? E se ao me demorar a tomar um café com alguém, tu passares e não vires a tristeza nestes meus olhos que sempre foram teus? E se, enquanto na minha varanda leio um dos vários livros que comprei para me alhear da tua ausência, tu estacionares o carro no sítio habitual da minha rua, olhares cá para cima, e eu não te vir? E se quando formos às compras ao mesmo sítio, tu entrares num corredor enquanto eu saio pelo outro imediatamente a seguir perdendo, por uns míseros centésimos de segundo, a luz com que os teus olhos me resgatariam? E se eu estiver de costas pensando em ti, a olhar a vitrina da loja onde comprei o perfume que um dia te ofereci, e tu passares sem me reconhecer?...

 

E se eu te vir com o teu grupo de amigos e tiver de me afastar de olhos no chão, para esconder a saudade que me invadiu, antes de te poder ver a procurar o meu rosto na multidão? E se eu ficar aqui sempre, sem me mexer, e nunca vieres bater a esta porta por um infundado receio que seja outra pessoa a abri-la, mesmo quando sabes que só tu existes em mim? E se um dia acordares com saudades minhas no teu coração, vieres até esta página e encontrares este post que eu fiz para ti? E se nesse dia eu acordar um pouco mais tarde e tiver recebido uma mensagem tua a convidares-me para um café?...

Licença Creative Commons
09
Nov14

Do teu níveo jardim secreto...

Entre Voos

 

Do teu jardim secreto, do teu níveo jardim secreto, que descansa na tua alma, é o que sinto mais falta… O brilho nos teus olhos, a tua voz tranquila, os braços meigos com que me abraçavas e me davas abrigo nesse jardim secreto, a pureza desse prado para onde me convidavas e, cúmplices, rebolámos e rimos e cantámos e nos amámos… Essa paz sem igual, essa certeza de te pertencer, que faz de ti o meu porto de abrigo… É do que sinto mais falta: as nossas conversas no teu jardim secreto...

Licença Creative Commons

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Arquivo

    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D