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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

16
Set15

Quarta-feira era o nosso dia...

Entre Voos

 

 

Quarta-feira era o nosso dia, lembras-te? De véspera já o dia me corria melhor com a antecipação do nosso encontro... Quando chegavas, antes de jantar, eu já tinha preparado as coisas: no ar sentia-se o aroma do Nagchampa Argabatti que coloquei a queimar pouco antes de entrares; na sala as almofadas estavam colocadas no sítio certo, por forma a tornar a nossa conversa após o jantar mais confortável; a comida já estava no forno, o salmão com limão e sal, como gostavas, a batata assada com orégãos e a música do John Mayer tocava tranquila, íntima, quente…

 

Chegavas, sorrias, colocavas as tuas coisas no aparador do corredor, logo a seguir à porta da entrada, após o que nos abraçávamos e beijávamos como se tivesse passado um mês, e não apenas dois dias, desde a última vez que estivéramos juntos... Depois pegava-te pela mão, íamos para a cozinha onde preparavas a tua habitual salada e colocávamos a conversa em dia: ao “Como te correu o dia, querida?” respondias “Oh, correu bem, cansativo, mas correu bem…” e olhavas para mim com aquele brilho no olhar que transmitia toda a alegria que sentias por ser professora, toda a responsabilidade e orgulho que colocavas no ato de ensinar, apesar dos mais de 90 minutos que durava a tua viagem para a escola, em cada sentido. “E o teu?” - perguntavas-me - “Fantástico, amor, corre sempre bem!” e ali ficávamos a conversar sobre o nosso dia, sobre o tempo, sobre os nossos meninos, ali pedias-me ajuda para resolver a tua dificuldade com aqueles problemas nas fórmulas do ficheiro Excel e decidíamos o que íamos fazer no próximo fim-de-semana… e eu amava-te ali, em pé, a olhar para ti, embevecido, amava-te nos teus gestos calmos enquanto cortavas a salada, amava-te nos sorrisos descontraídos que me oferecias, amava-te na tua voz que me tranquilizava a alma, amava-te na forma como os teus lábios compunham as palavras que proferias, amava-te na forma como te rias enquanto dizias que o teu carro só estava a gastar 4.5 aos 100, e então eu amava a cumplicidade que nos unia, amava-nos por saber que tudo estava bem, que nos tínhamos um ao outro e que nada mais importava, amava-nos por saber que tudo o que acontecia naquela cozinha tinha sido forjado através dos tempos e que era inevitável o nosso encontro, amava-nos porque sempre foi inevitável o nosso encontro: todo o universo conspirou para que nos encontrássemos em cada quarta-feira na minha cozinha e para que nos amássemos nos pequenos gestos e nas coisas simples da vida como tu a cortar a salada e eu a olhar o peixe no forno… Lembras-te?

 

Depois sentávamo-nos à mesa de madeira de bétula que tinha encostada à parede da cozinha, os pratos brancos, quadrados, que antes de chegares já tinha deixado sobre a toalha preta, dispostos simetricamente para nos sentarmos um de frente para o outro, e eu servia-nos uma concha do creme de peixe (delicioso) que tinha preparado e que sabia que só comias para eu não ficar triste (mas eu não ficaria triste, de qualquer maneira), mais tarde dirias que o peixe estava delicioso enquanto a minha mão deslizava em cima da mesa para ir ao encontro da tua pois os segundos intermináveis que tinham passado desde o meu último toque na tua pele tornavam insuportável a distância entre nós…

 

Antes da sobremesa, depois de levantar os pratos, aproximava-me de ti, da tua cadeira, virava-te para mim, sentava-me no teu colo e, enquanto segurava delicadamente o teu rosto bonito entre as minhas duas mãos, olhava-te nos olhos, dizia que te amava e depois, antes que pudesses sequer pensar em dizer alguma coisa, entregava-me aos teus lábios quentes que esperavam, húmidos, por mim...

 

O ritual do café Nespresso tomado na sala, tu sentada no sofá branco, eu sentado no chão em cima de uma almofada, tu a insistires para que eu me sentasse ao teu lado e eu sem te conseguir dizer que dali te podia abarcar toda, que dali conseguia abraçar toda a nossa vida apenas olhando para ti, que dali eu me maravilhava ao ter a certeza que eras tu quem estava sentada no meu sofá branco, eu deslumbrado por te ter ali, eu a olhar para nós, a agradecer em silêncio tudo o que tínhamos conseguido construir juntos, eu ali sentado naquela almofada no chão a amar-nos devagar, a saborear-te em cada gesto que fazias para afastar o cabelo para trás da orelha ou a ajustar os óculos (sabes que te adoro ver de óculos?) com a mão direita, nós a amarmo-nos enquanto tomavas o teu café e o John Mayer dedilhava o “Covered In Rain”, eu a apaixonar-me cada vez mais e mais por ti, eu naquela almofada no chão da sala e tu meio deitada no meu sofá branco somos o casal mais feliz do mundo…

 

E então peguei-te delicadamente na mão, tu sem ofereceres resistência (sabias que te ia levar para o nosso quarto, não sabias amor?), enquanto lá fora a chuva que começou a cair traça riscos de água nas janelas largas, lavando o cansaço dos nossos corpos, lavando as preocupações e celebrando o nosso amor: hoje é quarta-feira à noite, o nosso dia…

 

Lembras-te?

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