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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

"Amas-me?" - perguntou ela, séria, no exato instante em que o seu corpo nu acabara de se colar ao dele...

por Entre Voos, em 16.09.16

 

A manhã estava a acordar, preguiçosa e fria, ornamentada com os vestígios da primeira chuva de setembro, prenúncio de um Outono a chegar. A luz entrava timidamente pela janela grande do quarto, deixada aberta pelo cansaço no final do dia de ontem. Ao seu lado, o corpo dela já acordado, quente e macio, exalava o habitual perfume inebriante, envolvente, sedutor, despertando nele a urgência de tomar aquele ser como corolário da paz que sentia por dentro, onde tudo fazia sentido... Encostou-se a ela, acariciando-lhe os longos cabelos e, nesse gesto, despertando-lhe arrepios de prazer e risos de desejo...

 

"Amas-me?" - perguntou ela, séria, no exato instante em que o seu corpo nu acabara de se colar ao dele... "Acho-te piada!" - respondeu-lhe sem hesitar, como sempre o fazia, com o seu habitual sorriso cativante e os olhos presos no sítio onde as suas mãos lhe acariciavam a pele, exatamente por baixo da curvatura dos seios, como ele sabia que ela gostava. "Amas-me?" - repetiu-se, agora mais devagar, como se toda a vida deles dependesse daquela resposta... Desta vez ele olhou-a diretamente no fundo dos olhos, naqueles olhos de amêndoa pelos quais se apaixonara no primeiro momento em que a viu: "Amo-te sim, oh tonta, amo-te como nunca soube que era capaz de amar, amo-te como se soubesse que sempre serei teu..." - disse-lhe, sentindo que o coração, de tão cheio, quase lhe saia do peito... "Então, mostra-me..."- respondeu-lhe. "Desculpa?" - perguntou-lhe como se tivesse compreendido mal o que ela disse... "Mostra-me!" - repetiu ela, perentória...

 

E então ele mostrou-lhe... Mostrou-lhe tudo o que sabia: mostrou-lhe os prados que se escondiam nos recantos da pele quando lhe tocava; mostrou-lhe a lua cheia que pela primeira vez iluminava sem receio os segredos que guardava; desenhou-lhe o cheiro das flores que brotavam dos lábios em forma de gemidos; ofereceu-lhe o poder de um abraço que, vindo de dentro, foi capaz de voltar a reunir todos os pedaços caídos nos caminhos de ontem; mostrou-lhe o significado do tempo e da espera, do saber e da entrega; mostrou-lhe o que sentia por a ter ali, ao lado dele; mostrou-lhe tudo até à intensidade que deve existir entre duas almas quando se fundem num grito rouco...

 

"Quero uma vida assim, plena, um amor apaziguador de todas as dúvidas, nós assim, abraçados..." sussurrou quando, por fim, se deixou deslizar para se acomodar ao lado dele, aninhada no seu peito... Por momentos, enquanto ele lhe beijava o topo da cabeça, o seu pensamento reviu todos os caminhos que a trouxeram até ali e compreendeu... O silêncio morno, íntimo e confortável que entre eles caiu foi despertado minutos depois, quando ele, afagando a pele macia e rosada do rosto mais perfeito que alguma vez beijou, confessou: "Sei que não preciso de ir a mais lado nenhum, sabes?... É aqui o meu lugar, sinto-o... Não sei se esta será a vida do nosso amor, mas irei tentar, em cada dia, oferecer-te o amor de uma vida..." Envolveu-a um pouco mais com os seus braços e, beijando-a pausadamente entre os olhos, devagar, deixaram-se ficar ali em silêncio, sem pressa, dois cúmplices a construir, hoje, o amor de toda uma vida...

 

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O vestígio dos teus dedos na pele do meu corpo…

por Entre Voos, em 15.06.16

 

Vou acordando aos poucos, ainda ensonado, ao encontro do fresco de uma chuva primaveril nesta semana de verão. Depois de dias plenos de calor, esta pausa desejada simula tréguas com a inevitabilidade das temperaturas habituais para a época estival. Ainda deitado percorro o quarto com olhos que, lentamente, se vão habituando à luz baça que entra pela janela do quarto completamente aberta… Dou conta dos sons que, a espaços cada vez mais curtos, evidenciam uma cidade que acorda, ao mesmo tempo que vejo em cima da mesa de cabeceira o livro que me faz companhia à noite até que Hipnos me reclame para si… Na verdade, já reli todos os livros da minha biblioteca: eles são um refúgio e um amparo…

 

Há uma beleza serena, segura, no conforto de um livro que se relê sem que, no entanto, se torne uma repetição, pois encontramos sempre coisas novas que nos tinham escapado na primeira leitura: o comentário revelador de uma personagem secundária; a descrição do tempo invernoso que ajudará a solucionar o mistério; o vislumbre fugidio do anel de prata em que a figura principal reparou existir na mão de quem o ajudava; ou a tensão que se sente no ar e nos arrepia a pele na descrição do momento em que os olhos de dois futuros amantes se encontram pela primeira vez… Enfim, como dizer isto? Os livros ajudam-me a preencher o tempo que o silêncio da tua ausência me grita constantemente… Completa-se agora uma eternidade a tentar que a memória de ti se dilua no espaço incomensurável que fica entre os segundos de cada hora repetida até à exaustão, uma e outra vez, todos os dias, todos os meses…

 

Mas talvez seja melhor começar do princípio… Como falar do teu sorriso? Como descrever o teu olhar ou o aperto da tua mão na minha? Como descrever o que sinto quando a lua se pendura lá no alto, plena, nas noites em que abro o baú das memórias?... Sabes quando aquela pessoa fantástica que acabámos de conhecer começa a rir e, nesse instante, eclipsa tudo o que nos rodeia e nos parece o som mais perfeito que alguma vez ouvimos? Sabes a emoção que sentimos por dentro quando percebemos que esse riso se deveu, de alguma forma, a algo que tenhamos dito?... Contigo foi assim: como se tudo o que tivéssemos feito ao longo dos anos nada mais fosse do que o cumprimento de um elaborado plano para nos juntar no momento certo, no dia certo, no instante certo em que eu ali estava para te enxugar as mãos e, assim, iniciarmos o nosso livro…

 

Releio-o e tudo o que encontro é sentimento… Como percorrer com palavras as tuas orelhas perfeitas, pequenas e atentas, senão divulgando os sussurros meigos que lhes confiei? Como detalhar a bondade dos teus olhos, senão relatando como me apaixonava perdidamente por eles em cada olhar que nos juntava? Como caraterizar as tuas mãos macias e sensíveis, senão através da completude que sentia quando as entregavas, com cuidado, nas minhas? Como falar da tua deliciosa pele de veludo senão recitando a forma como a água cristalina nos sacia uma sede de milénios? Como definir o sabor dos teus lábios cor de cereja senão beijando-os uma e outra vez? Como explicar o paraíso que é o teu corpo perfeito, sem me referir ao encaixe irrepreensível que ele fazia com o meu, como que esculpido por um marceneiro intemporal para unir duas metades da mesma unidade? Como traduzir o inebriante perfume que se desprende dos teus longos cabelos, sem referir o adocicado do mel ou a fragrância do incenso que se queima numa noite de verão?...

 

Levanto-me. Sacudo a cabeça para afastar os pensamentos… Entro para o duche, abro a torneira e deixo-me ficar ali tentando que a água insuportavelmente quente me adormeça os sentidos, tentando que essa água arranque os vestígios do toque dos teus dedos na pele do meu corpo… Deixo-me, inutilmente, ficar ali…

 

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Sem pressa, sem dúvidas, sem remédio nem salvação, sem precisar de mais nada...

por Entre Voos, em 14.05.16

 

A manhã acordou em tons de azul-chuva e envolvida num vento frio. As nuvens baixas, cinzentas e carregadas, lembram-me que ainda estamos em maio. Sentado numa cadeira ao lado da janela grande da sala, os meus olhos divagam pela linha onde o mar encontra a areia, interiorizando o silêncio da casa vazia interrompido aqui e ali pelos breves ruídos das gaivotas…

 

Lá ao fundo, vejo um carro madrugador que se aproxima da praia e para no estacionamento ainda deserto a esta hora. Ele sai a correr e dá a volta ao carro para abrir a outra porta e, entre risos e simuladas tentativas de resistência por parte dela, acaba por conseguir arrastá-la para sentir o momento, o mar, o ar, o som das ondas, o seu abraço… Ficam ali por momentos, apenas ali, ele a abraçá-la, ela abraçada ao abraço dele, com o cabelo comprido ondulando ao vento, abrigados num amor que dá sentido e esperança às palavras que ele lhe promete ao ouvido…

 

Diz-lhe que aprendeu com o perfume dela que a vida dele nunca mais será a mesma. Diz-lhe que ela cheira a prados que se estendem tranquilos na primavera, a flores que dançam na brisa do verão, ao ar que antecipa a desejada chuva na primeira tarde de outono, ao arroz doce quente e cremoso que o inverno convida a trazer para a mesa… Aperta-a um pouco mais entre os braços, desejando nunca mais a largar e ficam ali por momentos, pensativos, trocando silêncios e olhares... Carinhoso, ele ajeita-lhe o casaco enquanto a volta para si para a beijar sem pressa, sem dúvidas, sem remédio nem salvação, sem precisar de mais nada no mundo para além de quem está nos seus braços… Fita-a, deslumbrado, para depois lhe sorrir com aquele sorriso que sabe que a conquistou… De repente, massaja-lhe energicamente as costas e os braços para afastar o frio e depois, por entre gritos, risos e cabelos despenteados, refugiam-se dentro do carro... Partiram devagar, deixando ao mar a incumbência de recolher e conservar as emoções que entregaram ao universo…

 

Amar também é uma escolha… É querer fazer de cada dia o melhor dia da nossa vida, todos os dias. É saber que mesmo os ventos mais fortes (e existirão ventos capazes de nos derrubar) não conseguirão silenciar as palavras que trocamos ao ouvido desde o primeiro dia em que nos abraçámos… Amar é também aprender… É aprender que se ama sem esperar nada em troca senão fazer a outra pessoa sorrir. É aprender que só se vive uma vez e que lábios que se beijam assim não podem estar errados. É aprender que não há nada no mundo que um abraço tranquilo não solucione, em paz, a olhar o mar, da mesma forma que não há nada no mundo capaz de apagar as saudades de um amor que teima em nos habitar por dentro, como se lhe pertencessemos, como se tivesse sido impresso na alma há milénios...

  

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“Só mais cinco minutos, vá lá…”

por Entre Voos, em 18.04.16

 

Acordei… O cheiro a pão acabado de fazer invadiu pacatamente o meu quarto e despertou-me os sentidos. Imiscuiu-se por entre os lençóis que me mantêm quente nesta manhã fria e trouxe-me o adocicado do fermento ainda percetível no odor morno e enfarinhado do pão estaladiço que repousa na máquina que deixei, na véspera, programada para as 6h00. Olho para o telefone e vejo que faltam exatamente onze minutos para as 6h30, hora a que se ouviria uma melodia serena se, entretanto, não tivesse desativado o alarme.

 

Lá fora, os sons da manhã vão preguiçosamente acordando o dia e chegam-me distorcidos, lentos, baços, como se estivesse completamente imerso na água tépida de uma banheira enorme. Coloco os lençóis por cima da cabeça para prolongar essa sensação e, como habitualmente, consigo imaginar-te aqui, onde te encontraria aninhada no meu mundo, sorrindo com um resmungo fingido de “Já é para acordar??”, sorrindo com mimo enquanto me puxarias para ti e pedirias como só os anjos sabem, irrecusavelmente: “Só mais cinco minutos, vá lá…”

 

É nestes momentos de sossego que mais te tenho saudades… não saudades do que fomos, mas saudades de te voltar a conhecer, de te voltar a fazer sorrir como que pela primeira vez, sabes?... Saudades das novas conversas que teríamos, saudades da oportunidade de te cativar o olhar, saudades de entrelaçar distraidamente os meus dedos nos teus, saudades de redescobrir a textura da tua pele naquele toque propositadamente mais demorado, saudades de confirmar a temperatura dos teus lábios ao toque macio dos meus… saudades de sentir contigo tudo aquilo que sinto… saudades de acontecermos, todos os dias, pela primeira vez…

 

Acordei… Mas está bem, vou ficar aqui deitado mais cinco minutos, abraçado a ti, a acariciar o teu cabelo longo, imerso no perfume que deixaste gravado de forma indelével na minha pele… Beijo-te com ternura em cada pálpebra tua, enquanto me deixo embalar pelos silêncios que trocamos e confesso, num suspiro, toda a saudade que me fazes sentir...

 

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As horas invisíveis...

por Entre Voos, em 08.04.16

 

Lenta e cuidadosamente, o sol que rompe o meu horizonte vai acordando a manhã, transfigurando o quadro de cinzentos anoitecidos num estimulante cenário de cores variadas, repleto de pormenores e vida… A estrada monótona que se recortava na luz artificial dos faróis do carro, ganha significado, revelando-se uma autoestrada com capacidade de transformar o tempo de condução num espaço de liberdade e o zumbido silencioso do motor num sussurro tranquilizador. O sistema de som “Harman Kardon” entrega sem mácula os acordes iniciais de “Catch & Release”, de Matt Simons, enriquecendo a experiência matutina com esta inspiradora e harmoniosa sonoridade...

 

A conduzir há quase duas horas, estas viagens tornam-se vagares de liberdade, portais sensoriais que me transportam para paisagens interiores de mar e memória. Abro o teto panorâmico deixando que a brisa fresca da manhã me acorde sentidos adormecidos e me lembre do toque aveludado da tua mão na minha, a caminho do último fim de semana… Nestes momentos mágicos, nestas horas de quietude e paz, cabem vidas inteiras num piscar de olhos, toda a eternidade num arrepio de pele…

 

Este é o meu espaço... Nele, subo a bordo do barco que navega nos teus olhos, de velas enfunadas, sentindo a maresia no teu perfume, o calor do sol nos teus lábios bem delineados, e o tempo a parar nos gestos arrastados com que compões o teu longo cabelo... Nele, penso em nós sem ruídos nem filtros, cúmplices sem destino nem passado, juntos apenas porque sim, apenas porque nos apetece, apenas porque nos sentimos bem… Nele, componho diálogos imaginários para preencher a tua ausência ou, outras vezes, aproveito o silêncio apenas para usufruir da música que me envolve enquanto, sereno, vou acompanhando a melodia tamborilando com os dedos o volante de couro macio...

 

Aumento o volume do som, sorrio, e oiço-me a cantar o refrão “Everybody got their reason, Everybody got their way, We're just catching and releasing, What builds up throughout the day; And it gets into your body, And it flows right through your blood, We can tell each other secrets, And remember how to love", disfrutando do melhor que temos na vida: tempo e memória... A viagem, cada viagem, transforma-se assim numa máquina do tempo, um relógio mágico cujos ponteiros se movem, não para trás mas, partindo das boas memórias, evoluindo em espiral para novos despertares interiores, dando substância a estas horas invisíveis onde te espero…

 

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