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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Do outro lado do mundo, a dez intransponíveis minutos de distância...

por Entre Voos, em 30.10.16

 

Foi como ler um daqueles livros (sabes?) que no final reconhecemos ser o mais incrível que lemos até à data… Primeiro é a curiosidade que nos prende a atenção, depois começamos a sentir-nos envolvidos e a desejar ler sempre um pouco mais, dia após dia, até que, sem dar por isso, estamos a devorar todos os pormenores com a sofreguidão de quem esperou toda a vida por algo assim… Finalmente, não queremos que acabe nunca mas, na realidade, tudo termina um dia, de uma forma ou de outra...

 

Vivia do outro lado do mundo, à distância de dez infinitos minutos dela. Fossem dez minutos, dez anos ou dez segundos, nada disso alterava a distância da ausência… Era já final da noite de domingo, daquele domingo especial. Sentado no sofá da sala olhou à sua volta: reparou nos armários, nas suas prateleiras apinhadas de livros organizados por autor, muitos deles sobrepostos, e que se tornaram no seu refúgio predileto; sorriu ao ver num canto da sala, ao pé da aparelhagem Nakamichi, a guitarra que o tem acompanhado para todo o lado e que, em cada dia, acaricia como se fosse a primeira vez… Tudo estava organizado, limpo, arrumado, tranquilo, em silêncio…. Aconchegou-se nos acordes da música que o ajudavam a entorpecer os sentidos e desviou o olhar para o livro que instantes antes pousara na mesa que ocupava o centro da sala, com a foto dela na capa…

 

Fechou os olhos e deu conta do murmúrio cristalino da água que, no hall de entrada, brincava na fonte zen com duas cascatas, ao lado da qual ardia o incenso Nag Chandan de sândalo… O som calmo dos Coldplay espalhava memórias na esteira do tempo que, a custo, se arrastava no relógio pendurado na parede branca da sala… Recordou que um dia lhe dissera que o silêncio é a língua própria dos que se amam: "Se existe um som, esse único, rouco e demorado som, será o manifesto final da volúpia, casta e interior, que eleva o amor ao lugar sem data que lhe pertence: a eternidade."... Deu por si, de repente, a desejar que ela entrasse naquele preciso instante pela porta da sala, que o abraçasse e beijasse com a naturalidade de quem estivesse a regressar de mais um dia de trabalho… Desejou que ela se sentasse ao seu lado e falasse sobre o jantar e sobre as aulas que ia preparar para amanhã, sobre os filhos que se tornaram homens e que conseguisse sentir, no olhar dele, que nunca seriam necessárias quaisquer palavras a mais para preencher a distância entre eles… “Amo-te…” – dir-lhe-ia, assim de repente – “e agora que disse que te amo, será para te o dizer todos os dias ao longo da minha vida...”

 

Quando a música terminou, levantou-se calmamente e aproximou-se da janela observando o horizonte onde a luz dos candeeiros da avenida, cansada, vestia mais um dia frio de outono. Ergueu a caneca com o que restava do seu chá Kashmir Tchai… Se alguém estivesse por perto, tê-lo-ia ouvido desejar-lhe os parabéns, a ela, do outro lado do mundo, a dez intransponíveis minutos de distância. "Talvez noutra vida..." - pensou... Abanou a cabeça e, antes de se dirigir ao quarto, com todo o vagar do mundo, olhou uma última vez para a sala... Depois voltou-se e apagou a luz...

 

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Parabéns, meu “Huckleberry”...

por Entre Voos, em 12.01.16

 

O que mais me impressionou, desde cedo, foi o seu domínio da construção frásica, a forma como utilizava as palavras e o rigor do seu uso, sempre no sítio certo, a ironia no momento adequado… Impossível não notar o olhar vivo, sedutor, desafiador, a personalidade vincada, aquele "sorriso de um milhão de dólares", a curiosidade insaciável pelo saber, a paixão que dele transbordava ao ver um cão em qualquer sítio, ou o amor que o abraço dele - do tamanho do mundo - era capaz de nos transmitir…

 

Faz anos hoje, ele, uma outra parte de mim, um dos dois miúdos fantásticos da minha vida, o mais desafiador que já conheci, daqueles que nos leva ao desespero para depois nos resgatar com um olhar ou simplesmente vindo sentar-se ao nosso lado, abraçando-nos, pedindo desculpa com uma voz sumida e o olhar de anjo :)… Acredito que será recordado pelos seus amigos como um “Huckleberry Finn”, o amigo que os desafiou a atravessar o rio mais largo, a subir a árvore mais alta, a tentar sempre um pouco mais, talvez mesmo a fazer um dia de gazeta à escola, ou a entrar com os amigos lá em casa sem autorização da mãe :) A sua voz forte e rosto bonito, o ar decidido e deliciosamente convencido, são a marca deste furacão doce, postura amaciada com olhos meigos e um coração de ouro, herdados da mãe...

 

Soube desde novo que tinha um mundo para conquistar e, por isso, é o que faz melhor: conquistou a mãe, os amigos, os professores, a família, o irmão, os desafios… E conquistou-me a mim como só pessoas especiais o conseguem fazer: para sempre :o)… Não vou lá estar, ao seu lado, para poder desfrutar da sua alegria quando der o primeiro beijo de amor, mas consigo imaginar, também aí, a curiosidade com que irá percorrer os rios do afeto, a forma como se deliciará nas margens frescas da paixão, a entrega total aos olhos que o conquistarem, a sensibilidade e delicadeza na forma como lhe pegará pela mão e a guiará, numa jangada da qual se declarará capitão sem bússola, pelos caminhos - ora tranquilos, ora tumultuosos - do primeiro amor da sua vida, do amor que irá encher a mãe de alegria, saudade e orgulho, perante a evidência de que o seu pedaço de alma mais novo cresceu e se confirmou como uma pessoa tão especial e linda. Hoje o brilho que dele emana já tem, e sempre terá, a luz e os gestos da mãe, fantástica, que o ensinou (a ele e ao irmão) a atravessar com confiança os rios desta vida...

 

Obrigado pela boleia que me deste nas tuas primeiras jangadas, com a certeza que, sempre que tivermos uma palhinha na bebida à nossa frente, uma imensa saudade um do outro e uma enorme vontade de rir nos invadirá, mas que rapidamente tentaremos esconder para que ninguém repare e não necessitemos de explicar o porquê :o) Adoro-te, miúdo!... Tchim, Tchim! :o)

  

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De partida para lado nenhum, a soprar estrelas para lá das nuvens...

por Entre Voos, em 30.10.15

  

"Last call for passenger..." anuncia através do sistema de som do aeroporto uma voz anónima, sensual, quente, decidida, que conforta e nos faz sentir, a cada um de nós, a pessoa mais importante da sala de espera. Fez-me lembrar de ti... De amantes a estranhos, anónimos, foi o nosso percurso demasiado rápido: de um céu perfeito ao abandono na poeira do tempo, um voo a dois reduzido hoje a silêncio e pequenos vislumbres de nós, como moedas esquecidas no bolso de um antigo casaco confortável...

 

Parei no caminho para beber café na estação de serviço, não por causa da qualidade (nada como um Nespresso, certo?), mas como quem quer parar o tempo para conseguir respirar, para olhar devagar para a vida que corre desenfreada à nossa volta, talvez para ver se, por conspiração do destino e por sincronização inesperada de todos os relógios do Universo, tu estarias ali, numa qualquer mesa, lá ao fundo, quem sabe, a beber o teu café com canela em pó, sem açúcar, com um lugar vago ao teu lado onde me pudesse sentar… Não estavas, claro, mas isso não me impediu de sorrir e abanar a cabeça…

 

Comprei o jornal, pedi um café, sentei-me, mas não li o jornal e mesmo o café acabou por esfriar intacto. Observei, apenas, tudo e nada, todos e ninguém... Saí e preparei-me devagar para fumar um cigarro, como convém num ritual, enquanto as pessoas chegavam apressadas, casais com e sem filhos, sem tempo a perder, sem reparar que eu as observava, eles quase sem se olharem, e acredito mesmo que alguns nem sequer tinham a noção do momento singular, fantástico, delicioso, que era estarem ali com filhos a empurrarem-se, com aquele "alguém" especial ao lado, um caminho para percorrer, um destino para onde ir...

 

Naquele fim de tarde o frio delineava o fumo que eu ia soprando para o ar, definindo-o por um breve e suspenso momento para logo desaparecer completamente, sem rasto, sem forma nem substância… "Sem saber bem como, nalgum momento desta vida tinhamo-nos desencontrado, talvez um de nós tenha chegado demasiado tarde, ou demasiado cedo, ou o outro não tenha sequer conseguido aparecer...", pensei, enquanto agarrava a gola do casaco para afastar o frio e os pensamentos... Quando voltei para o carro e me sentei confortável, no rádio estava a passar Sting (uma bonita versão do "Come down in time")… “Parabéns, onde quer que estejas!”, deixei escapar, num arrepio de pele, e voltei a sorrir enquanto abanava a cabeça devagar, pensativo, e colocava o carro a trabalhar, pois tinha um voo para apanhar…

 

É um mundo fantástico, este, e estamos todos nele... "Last call for passenger..." terei ouvido o meu nome?... De partida para lado nenhum, a soprar estrelas para lá das nuvens, nesta noite fria... 

 

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Que outra prenda posso dar a quem me dá tudo, mãe?...

por Entre Voos, em 28.10.15

 

Não me olhes assim, com esse amor infinito pendurado no sorriso dos teus olhos. Hoje quero que vejas nos meus tudo o que sempre te quis dizer e nunca tive coragem, talvez porque nós, homens, temos uma dificuldade antropológica em pronunciar a palavra "amo-te".

 

Hoje fazes anos… Hoje quero ser eu a ter paciência para ti. É a minha vez de te dar colo, de deixar que te aninhes no meu abraço e te lembres, por instantes, que o tempo não parou. Hoje quero que olhes para mim e vejas, não a criança que foi o teu filho, mas o homem que geraste. Quando tudo apostei e ganhei, estavas ao meu lado; quando tudo apostei e perdi, estiveste lá para me apanhar do chão e ajudares a erguer. Sei hoje que cada ruga na tua pele foi causada por uma dor minha, que em cada preocupação tua estiveram os caminhos que me deixaste percorrer, solto, a descobrir a vida. Colocaste em nós, teus filhos, o melhor que és. Até o brilho irrequieto que tenho nos olhos te pertence e mesmo a minha forma de amar é como a tua: nada menos que tudo. Tu levantas-me todos os dias com palavras que pacificam lágrimas, com saudades que me fazem nascer sorrisos, com sorrisos que elevam as minhas vitórias. Há momentos que não voltam mais, mas as memórias são quadros que vamos pendurando nos corredores da vida, nas encruzilhadas, onde nos demoramos a pensar nos que nos rodeiam e naqueles que, apesar de ausentes, fazem parte de nós para sempre...

 

Vejo-te a rodopiar, atarefada, de volta dos netos que não te deixam descansar um minuto, a compor a mesa que ainda não está perfeita, a fazer a comida que no fogão vai enchendo a casa de cheiros que já são eternos e significados completos em família. Ahhhh, se eu pudesse, parava este comboio que nos rouba o tempo para te poder ter sempre aí atarefada e com esta gente toda em casa, como tu gostas :o) Mas hoje vou ser eu a ouvir-te e a dizer que tudo vai correr bem, que o tempo é nosso amigo e que ajuda a serenar o sofrimento, por mais duro ou profundo que seja. Hoje vou ser eu a passar a mão pelo teu cabelo, a ajeitar aquela madeixa teimosa e a dizer-te que todos os dias falo contigo, mesmo quando não te telefono...

 

És tão preocupada com os outros que quase nos fazes esquecer das tuas dores: é isso que pretendes, não é, passar despercebida? Mas hoje não vais conseguir :o) Hoje terás à tua volta a família que te ama. Hoje serás a estrela visível da nossa festa, da tua festa. Hoje vais esquecer-te dos outros por uns instantes e ver o amor infinito pendurado nos olhos destes teus filhos e netos, nos sorrisos tranquilos, genuínos e cheios que brindam à tua saúde… Hoje quero que saibas que vou ser sempre um teu porto de abrigo: que outra prenda posso dar a quem me dá tudo, mãe?... Parabéns :o)

 

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Tchim, tchim!

por Entre Voos, em 25.09.15

 

 

 

Uma parte de mim faz anos hoje… Alto, bonito, sensível, fantástico, completa mais um ano cheio de experiências boas e inicia outro ano com esperanças intactas no futuro adulto que se aproxima a passos largos. Parabéns! :o)

 

Caminho difícil o dele, ano após ano, a luta diária, o crescimento interior, o conhecer as suas forças e as suas fraquezas, mas está agora um homem feito, lindo, responsável, feliz e de sucesso :o) Um autêntico “fogo de artifício” nem mais, nem menos :) O brilho que ele tem hoje é resultado de todo o amor, carinho e dedicação que colocaste na sua educação, das experiências que lhe proporcionaste, das brigas que fez com o irmão, do colo, do apoio no estudo, das brincadeiras na piscina, das conversas, das brincadeiras na neve, das caches que descobriram juntos, das camisas às riscas que o obrigaste a vestir, dos exemplos de boa educação e respeito que lhe deste, enfim, daquilo que é e sustenta uma família: amor incondicional.

 

Quanto a ti, aniversariante, mostra à mãe (ainda mais) o quanto a adoras e o quanto reconheces tudo o que ela tem feito por ti ao longo destes anos todos, os sacrifícios, os raspanetes, as prendas, os castigos, tudo foi e é importante. Tu és uma das pessoas que a tua mãe mais adora no mundo! E não te chateies tanto com o teu irmão mais pequeno, sei que o adoras tanto quanto ele a ti. Protege a mãe e dá-lhe um beijo nos dias em que ela estiver triste com o mesmo amor com que ela soprou as tuas feridas nos joelhos. Não sejas nunca menos do que tudo o que a mãe te ensinou e quis para ti. Nos dias bons, dá-lhe um abraço só porque sim, ela vai entender :o) E de vez em quando, sem tristeza, dá uma gargalhada ao te lembrares das nossas tonteiras (eu sei que esteja onde estiver vou ouvir esse teu riso :o) e sabes que longe da vista não é longe do coração.)

 

Levanto deste lado um brinde a esse adolescente fantástico, a esses filhos, que tanto significado dão à existência, mesmo sabendo que um dia os caminhos da vida se encarregarão de criar em nós um aperto de saudade (e ansiedade) sempre que se afastarem de casa por mais de umas horas :o). Um dia eles irão trilhar o seu próprio caminho e aí, olhando de longe, a mãe irá sentar-se tranquila e com a certeza de ter feito um trabalho ímpar, a estrela mais brilhante do mundo a dar um pouco da sua luz a cada um deles, a iluminar-lhes o caminho, com cuidado, amor, paciência, dedicação e abnegação. Recebe estes parabéns soprados de longe, neste murmúrio que o vento e o tempo te farão chegar ao coração… Tchim, Tchim!

 

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