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Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

Entre Voos

A vida também acontece entre voos, entre momentos, entre o ontem e o amanhã. "Entre Voos" é um espaço de sentimentos feitos palavras, onde se espera pela vida como por um voo na sala de um qualquer aeroporto...

O tempo, essa mentira...

por Entre Voos, em 05.11.15

 

 

Nuvens baixas afagam o topo da montanha. Tímidos raios de sol recortam sombras no nevoeiro que lentamente toma posse de árvores e pensamentos. O cheiro adocicado da humidade deixada pela chuva no princípio da tarde, inconfundível, liberta-se do espesso tapete que cobre a estrada, feito de pequenos ramos quebradiços e folhas amarelecidas pelo outono, e invade o ar compondo com elegância o quadro de cores sépia que a estação oferece. Vislumbres de pequenos carreiros, intemporais, sugerem destinos nas encostas que se debruçam, decididas, sobre planícies onde o tempo declarou tréguas à vida.

 

O carro desfila gracioso ao longo do percurso recortado nas encostas da Serra da Estrela, invocando danças familiares com as sensações íntimas que povoam estes espaços, vislumbres de geocaching, ecos de risos de alegria entre descidas na neve e o cheiro da lenha a arder na lareira da pequena cabana de madeira, número 37, que continha o mundo todo... É como aquele pequeno raio de sol que acaricia a pele da mão que agarra o volante e me recorda a grandiosidade e intensidade do Sol para lá das nuvens: da mesma forma, não preciso de te tocar para que os meus sentidos te percorram, conhecedores, habituais…

 

Quando tudo acaba, a dor que nos invade é o sintoma da perda, não apenas de uma parte de nós, mas do todo que éramos. Que homem pode ter sentido esse todo, sobreviver e não sonhar acordado? O vínculo assim construído é como a água que alimenta as raízes da árvore que somos, que se espalham e transbordam para além dos limites da sua dimensão, e que flui na profundidade do ser e de um conhecimento antigo...

 

Senti vontade de encostar o carro e disfrutar da vista arrebatadora sobre o vale que serpenteava a serra. Quando o fiz, deixei-me escorrer para o momento presente, abraçando a paz e tranquilidade dos sons que compunham a realidade: o murmurar do regato que se adivinha por entre a fila de arvores ordenada, lá em baixo; o chilrear das aves que pontilham o céu e presidem sobre o espaço, reclamando tempo e luz às nuvens grávidas de humidade, sérias na sua cor cinzenta; o frio envolvente e ubíquo que tudo liga e anuncia o fim de um tempo e o começo de outro…

 

Concilio-me com o agora que me rodeia e com as memórias que trago dentro… Acredito que o tempo tem um papel importante nessa pacificação, que o tempo nos indicará o lugar onde arrumar essa saudade, que o tempo tudo resolve… Liguei o carro e continuei a minha viagem, repetindo para mim mesmo essa mentira, esculpindo essa vanidade na mente, já ordenando os pensamentos para a reunião que, dali a pouco, eu iria coordenar, sem conseguir evitar uma certa sensação de incompletude...

 

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Soube que já não existo em ti...

por Entre Voos, em 27.09.15

 

Estou há quase duas horas a conduzir, a dirigir-me para mais uma reunião, longe de casa, longe de tudo, longe... Não sendo a sala de espera de um aeroporto, na realidade o carro não deixa de ser mais uma sala de espera onde os minutos e as horas são consumidos com a habitual lentidão: não deixo de sentir que me estou a dirigir a lado nenhum. Estou há duas horas a conduzir e a única certeza que tenho é que me dirijo para lado nenhum... Para onde ir, depois de teres apagado todos os caminhos que me levavam a ti, depois de teres deixado bem claro que me querias fora da tua vida? Que dia é hoje? Em que mês estamos? Olho à minha volta e os momentos que vivemos surgem-me em cada canto, recortados nas fotos espalhadas pelo chão da nossa pele. Aqui o tempo arrasta-se numa quase imobilidade, subjugado às memórias doces polvilhadas com o som da tua ausência. Que dia é hoje? Que mês é este?...

 

E, no entanto, ainda aqui estou, teu, como no primeiro dia em que nos beijámos, com um coração que ainda bate descompassado quando uma memória tua me envolve como uma brisa suave, cálida, límpida, breve... Eu deveria ter percebido... Que lugar tem o perdão nos erros que decidimos juntos?

 

Foi naquele domingo de setembro que eu soube: disseram-me que tinhas alguém... Lentamente deixei-me afundar no torpor do modo de sobrevivência que tomou conta de mim. Lentamente deixei-me afundar e reduzir até ao tamanho de um ponto insignificante no meio dos lençóis que foram nossos. Vontade de fugir, mas fugir para onde, quando tudo o que temos e somos está dentro de nós?

 

Soube que o rosto que os teus olhos percorrem já não é o meu. Soube que as mãos que apertam as tuas têm outra textura. Soube que as carícias que agora te arrepiam não pertencem aos meus dedos outrora suaves. Soube que os teus sorrisos já não se destinam aos meus olhos. Soube que os teus longos cabelos macios e da cor do ouro se espalham agora noutro peito. Soube que os poemas que lês são delineados com outra caligrafia, outras memórias, outro futuro. Soube que nos sussurros que te fazem brilhar já não se ouve a minha voz. Soube que os lábios que exploram o teu corpo não têm o gosto dos meus e até os braços que te confortam têm outro perfume. Foi naquele domingo de setembro que soube que o meu coração não tem lugar dentro do teu, que o motivo da tua paz já não mora nos meus olhos...

 

Foi por outros que soube que este outono será um inverno demorado. Soube que nada, nunca mais, voltará a ser como era, nem como poderia ter sido... Soube que já não existo em ti e que agora voo sozinho...

 

 

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Chegar “lá”, onde o silêncio entre nós não é distância...

por Entre Voos, em 03.12.13

 

Eu não penso muito nas coisas, talvez seja uma pessoa mais de sentir... Não penso muito em ti, porque te sinto sempre, e não pensar em ti é uma forma de te sentir completamente. Acho que és a tal, não sei se já te disse isso, ao fim destes anos todos... Basta estender o braço na cama, de manhã, e não te ter lá, não te poder tocar, abraçar, dar-te um beijo e sentir o perfume da tua pele, mesmo que por apenas 15 minutos, para ficar com saudades tuas...

 

Aprendi muito contigo, coisas que não quis aprender durante muito tempo, antes de tu estares aqui. Agora a tua presença torna-se natural e nem por isso menos surpreendente... Acho que agora é demasiado tarde para voltar atrás (não que queira!), pois estou ligado a ti de uma forma tão linda e profunda, que qualquer distância entre nós é penosa, qualquer distância maior que a espessura da tua pele colada à minha é dolorosa... Tu és todos os meus destinos, o porto seguro onde descanso no final de cada viagem, na textura da tua pele, na leveza da tua respiração, no perfume que deixas no ar, no desejo que espalhas do cimo dos teus saltos altos, da promessa implícita no teu sorriso, no calor que os teus olhos me entregam, no aconchego macio que é a tua voz…

 

Sempre te amarei, independentemente do futuro. Os nossos desafios não são profissionais nem de distância, são humanos, são de construção de uma família, são de saber que tudo vale a pena, são de paisagens interiores e memórias e, quando um dia o tempo reclamar o que é seu por direito, o toque da tua pele nos meus lábios continuará a ser seda, e os teus cabelos brancos entrelaçados nos dedos das minhas mãos serão a prova de que tudo valeu a pena e que conseguimos. :o)

 

E é isso: quero, contigo, conseguir chegar “lá”, onde o silêncio entre nós não é distância, mas paz, não é desapego, mas sim a tranquilidade de almas gémeas que tiveram a sorte de se encontrar e experimentar, juntas, entre perigos e deslumbramento, tudo o que a vida nos pode proporcionar.

 

Por isso, “Oh, have to take your hand / And feel your breath for fear this someday will be over / I pull you close, so much to lose knowing that nothing lasts forever / I didn't care before you were here.”

 

Quero-te. Amo-te.

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